A inércia da reeleição


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A política toma emprestado da Física muitas expressões e conceitos para explicar ou justificar certas situações. Neste Ano Novo, quando a idéia de mudança embala a sociedade – sempre na expectativa de uma vida melhor –, é impressionante a inércia que tomou conta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ponto de começar o novo mandato com um governo velho. Segundo os físicos, a inércia é uma propriedade da matéria. Funciona assim: um corpo não submetido à ação de nenhuma força ou submetido a um conjunto de forças que se anulam não sofre variação de velocidade. Se está parado, continua parado; se está em movimento, sua velocidade se mantém constante. O primeiro a identificar a inércia foi Galileu Galilei (1554-1642), que inventou o telescópio, a balança hidrostática e o compasso geométrico. Quase foi parar na fogueira da Inquisição porque comprovou a tese de Copérnico, de que o centro do sistema planetário era o Sol e não a Terra. Sua tese sobre a inércia foi comprovada por Isaac Newton (1643-1727), físico e matemático inglês que nela identificou o primeiro princípio da Dinâmica (a 1ª Lei de Newton). Newton explicou que todos os corpos dotados de massa são "preguiçosos" e não desejam modificar seu movimento. Se formos utilizar como exemplo um vagão de trem, quando a composição parte todos os passageiros tendem a se deslocar para trás; quando freia, todos são lançados para a frente e tendem manter a velocidade em que vinham. É mais ou menos essa a situação do governo Lula na virada do primeiro para o segundo mandato. Quem atualmente ocupa os ministérios não quer sair do lugar e resiste a qualquer movimento de avanço do governo, sobretudo os ministros do PT e a atual equipe econômica. Já as forças que se agregaram ao governo durante a campanha eleitoral, a começar pelo PMDB, querem mudanças, principalmente na Esplanada dos Ministérios. Como essas forças se anulam, não acontece nada. A força que poderia desequilibrar o processo, rompendo a inércia, é o presidente da República, mas Lula se tornou prisioneiro não da inércia do poder – já garantido por mais quatro anos de mandato –, mas da inércia da própria reeleição. Conseguiu se reeleger graças ao grande carisma, às políticas voltadas para a população de baixa renda e à comparação dos resultados econômicos do seu primeiro mandato com os governos anteriores. Só no segundo turno anunciou a intenção de "destravar" a economia e fazer o país crescer a uma taxa anual de 5% do PIB. Fechou o primeiro mandato com uma taxa de crescimento medíocre, muito aquém do "espetáculo" que prometera, mas com índices de popularidade altíssimo. Por que mudar o rumo e velocidade (olha a inércia aí, novamente) e correr o risco de descarrilar o trem? Essa interrogação paralisa o presidente Lula. O pragmatismo foi marca registrada de Lula no primeiro mandato. Prudente, conseguiu evitar os perigos que rondaram seu governo. Agiu assim durante a crise ética, mas foi principalmente no plano econômico que ancorou seu governo durante a borrasca. Lula manteve o tripé da política monetária de Fernando Henrique Cardoso: meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Todas as pressões no sentido de se afastar desse rumo foram rechaçadas. Agora, quando novamente emerge o debate sobre as limitações dessa política, Lula evita uma mudança de rumo. Sabe que a inflação baixa foi um dos vetores da reeleição. Teme uma mudança no câmbio que desajuste a economia. Não abre mão do superávit fiscal, mas nesse aspecto vive seu maior dilema: quer aumentar a taxa de investimentos, para acelerar a economia, mas não pretende fazer cortes no custeio – gastos sociais e Previdência, principalmente – para não perder a popularidade. A conta não fecha. É a inércia da reeleição atuando novamente. LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista

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