O deleite


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Quando terminei uma de minhas palestras, uma garota me surpreendeu com uma frase: `Luciano, sabe o que mais gostei na sua palestra? Foi perceber que você estava se divertindo!" Acho que esse foi um dos maiores elogios que recebi... Se ela percebeu que eu me diverti, a palestra foi um sucesso! Pelo menos para ela. Você já vivenciou isso? Quando está lidando com uma pessoa que parece estar se divertindo com o que faz? Olhe uma criança brincando, por exemplo. Repare no nível de concentração dela, na entrega total àquele mundo por ela criado. Não é de dar inveja? Pois aprendi a prestar muita atenção nisso. E até algum tempo atrás eu usava essa expressão `divertindo-se` para tratar do assunto. Até que tive a curiosidade de procurar um dicionário e descobrir que `diversão` quer dizer recreação, distração, entretenimento. O que não era bem o que eu pretendia dizer. Parti então em busca da palavra perfeita. E achei `deleite`, que quer dizer gozo íntimo e suave, prazer inteiro, pleno. Delícia. Agora, sim! Sempre que vejo um trabalho bem feito, que me passa um `algo mais` via intuição, uma sensação boa, concluo que alguém ali andou se deleitando. Alguém ali andou tendo prazer. E, acredite, esse deleite é contagioso. Ele passa pra gente, pelo brilho nos olhos, pela empolgação no falar, no gestual. E, mesmo que o interlocutor não esteja presente, funciona! É assim com as verdadeiras obras de arte. Sabe aquele quadro que você observa e `sente` que algo te toca? Aquela melodia que te emociona? Aquele poema que te massageia a alma? Aquele texto que te faz refletir? Pois é. Fique certo que alguém andou se deleitando enquanto produzia aquilo. E você foi contagiado. Percebeu? Por outro lado, quando se perceber contagiado, dê uma boa observada em seu interlocutor. Veja se ele está mal-humorado, azedo ou preocupado. Veja se ele está sério ou sereno. Nessa sua percepção estão as pistas, e talvez você descubra que Oscar Wilde estava certo quando escreveu que `a seriedade é o único refúgio dos medíocres`. A grande questão então é: você está se deleitando com o que faz? Deleita-se acompanhando o auditor da ISO 9000? Atendendo a uma reclamação de um cliente? Servindo como caixa no supermercado? Reunindo-se para discutir aquele problema? Ouvindo o rádio enquanto dirige? Corrigindo as provas de seus alunos? Atendendo às solicitações de seus eleitores? Se não, você está com algum problema. Ou melhor, quem está com algum problema é o seu interlocutor. O coitado jamais sentirá o prazer de lhe dizer que percebeu o seu deleite. Então fica assim: meu desejo para 2007 é: deleite-se. No trabalho, nos estudos, no lazer. E que você seja rodeado por gente que se deleita também. Parece pouco? Pois imagine chegar ao final de 2007 com a sensação de que você se deleitou... E compare com a sensação que está sentindo neste final de 2006. Que diferença, hein? LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.

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