Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, dizia que nada era mais genial que fracionar o ano em doze meses, o limite perfeito para a necessária renovação. De fato, sem esse hipotético recomeçar, a vida se tornaria, com certeza, mais difícil. E o propósito de renovar nos enseja sonhar, planejar, criar. Há sempre um desejo de que as coisas se tornem melhores, embora saibamos que, entra ano, sai ano, algumas delas não mudam. O ambiente se degrada em escala assustadora, colocando em risco a vida na face da Terra. A violência avulta e a crueldade já não se contenta com a morte, é necessário que esta aconteça em contexto de crueldade, de que são exemplos os ataques de bandidos a ônibus no Rio de Janeiro, na última quinta-feira. A miséria cresce e empurra crianças para a promiscuidade das ruas e o submundo do crime. A riqueza se concentra nas mãos de poucos, em acintosa demonstração de que as políticas econômicas, implantadas para permitir uma divisão mais justa da renda, estão equivocadas ou são uma farsa montada para iludir e para eleger os que as defendem como panacéia.
Apesar de tanta ruindade que nos chega de todos os lados, resiste a esperança em um futuro melhor. E quando se instaura dezembro, o mês do ritmo alucinante, do corre-corre, das festas natalinas, do Réveillon, das férias, a impressão de turbilhão é amenizada pelos votos de “próspero Ano Novo” que os cartões trazem impressos desde que inventados por um artista plástico na Londres do século 19. Ainda que componham um clichê, e mesmo que em nada traduzam a sinceridade do propósito de quem cumprimenta, eles despertam a nossa consciência para o fato de que mais um bloco de 365 dias se fecha e um outro se abre novinho em folha, a fim de que possamos trilhar caminhos ainda virgens de erros. É imbuído deste espírito que haveremos de entender a chegada de um novo ano. O homem, eterno insatisfeito, buscará o aperfeiçoamento, pois há sempre muito o que mudar e o que explorar, assim como existem metas a alcançar, alegrias a vivenciar, apoios sinceros com os quais contar, lições de vida a aprender, alguma coisa a ensinar. Dentro dessa possibilidade de retomar o tempo que o ano novo nos apresenta cheio de frescor, que possamos ter saúde para lutar pelas conquistas, serenidade para fazer boas escolhas, muito amor para conferir sentido a tudo que nos cerca e às vezes nos parece um mistério. O mistério da vida que se renova sempre.
De resto, é pensar que ninguém escapa ileso dessa vida. E, como disse Henry Miller, “Deus não quer que cheguemos a ele em estado de inocência”. Vivamos. Já em contagem regressiva para 2007.
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