Chaves


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Um menino sem nome, desamparado e faminto como tantos outros da América Latina. Uma mulher cujo marido marinheiro foi embora e nunca mais voltou, deixando-a sozinha com o filho, que protege de todas as formas, chegando ao extremo de querer tratá-lo como se fossem ricos, indignos de se misturarem com a gentalha. Um viúvo desempregado que tenta fazer vários bicos (sapateiro, leiteiro, pedreiro, mecânico, vendedor de sucata, entre outros) para sustentar a filha e pagar o aluguel, não conseguindo cumprir a segunda obrigação. Uma idosa que mora sozinha, nunca recebe a visita de parentes, sofre muito de carência afetiva de modo a tentar ganhar um pouco de afeto fazendo doces para o vizinho e, ainda por cima, é desprezada por todos e alvo de chacota das crianças. Essas pessoas que vivem em um cortiço pobre são os personagens da série de maior sucesso da TV latino-americana. Chaves, que começou a ser gravado em 1971, é um programa marginalizado pela crítica que o acusa de “idiota”, “fútil”, “bobo”, seu sucesso muitas vezes é atribuído a seu suposto humor ingênuo e simples, mas esconde forte crítica social e um cinismo às vezes sarcástico. As contradições da sociedade mexicana marcada pelo abismo entre o norte rico e sul pobre, e pela distância entre os miseráveis e burgueses verificados em toda cidade grande daquele país são retratadas na série. A situação se torna mais evidente quando o cortiço é visitado pelo dono dos imóveis, o Senhor Barriga, que só vai àquele lugar num carrão, para cobrar o aluguel de seus inquilinos. A vila é ainda visitada esporadicamente por outros personagens: Jaiminho, migrante do vilarejo de Tangamandápio (que existe de verdade), no sul do México, que se mudou para a cidade grande em busca de melhores condições. O máximo que conseguiu foi um mal-remunerado emprego de carteiro que exigia do profissional saber andar de bicicleta. Nem para isso Jaiminho teve oportunidade de adquirir qualificação e tinha que empurrar a magrela por toda a cidade. Havia ainda o professor das crianças, desvalorizado, desmoralizado e desrespeitado. O seriado foi um grande sucesso em toda a América Latina e entre os imigrantes de origem hispânica nos Estados Unidos por fazer rir da tragédia cotidiana comum a essas sociedades. No Brasil, onde é transmitido desde os anos 80 pelo SBT, o êxito na briga pela audiência se deve em parte também à dublagem. Para se ter uma idéia, os dubladores praticamente reescreveram os diálogos referentes à História do México, passando-os para piadas relativas à História do Brasil nos episódios da escolinha. O esforço para não perder o sentido da comédia na tradução foi quase perfeito. Contudo, algumas coisas ainda ficaram de fora. O personagem principal, por exemplo, não tinha nome e era chamado de “chavo” pelos demais. “Chavo” é uma forma vulgar para “garoto” em espanhol, o equivalente ao nosso “moleque”. Na versão brasileira, porém, o garoto ganhou nome próprio: Chaves. A série, que foi concebida para o público adulto mas mudou seu foco logo no início devido ao sucesso entre as crianças, deixou de ser gravado após a saída de Ramón Valdez (o Seu Madruga, Don Ramón, no original) e Carlos Villagrán (Quico), uma vez que os episódios sem estes dois atores não tinham o mesmo sucesso que os anteriores. Mas, por quem estava com sede de novas aventuras dos personagens, a estréia do desenho animado do Chaves no México há dois meses foi recebida com festa. As novas aventuras devem chegar ao Brasil em 2007, embora o SBT (que tem prioridade nas negociações com a Televisa) não divulgue exatamente quando estréia a atração em sua programação. Os apressadinhos porém já podem ver os episódios em espanhol no site You Tube (www.youtube.com), bastando usar as palavras “chavo” e “animado” no campo de busca. O desenho, porém, tem um sério desfalque: a Chiquinha ficou de fora devido a brigas pelos direitos autorais sobre a personagem entre Roberto Bolaños, criador do programa, e Maria Antonieta de las Nieves, a atriz que a interpretava. Amado por uns, odiados por outros, sem meio termo, Chaves é um fenômeno com altos índices de audiência mesmo após 20 anos sem ser gravado um único episódio inédito. Muitos acadêmicos se dedicaram a estudar o fenômeno Chaves. Entre eles destacam-se Luis Joly, Fernando Thuler e Paulo Franco, autores dos livros Chaves, Foi sem Querer Querendo? e Sigam-me os bons, sendo o último mais relacionado à série Chapolin, que tinha o mesmo produtor e ator principal, Roberto Bolanhos, o mesmo diretor, Enrique Segoviano, e o mesmo elenco.

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