Marcela: Um bebê para renovar as esperanças


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Cacilda Ferreira, 36, segura a filha Marcela na maternidade da Santa Casa de Patrocínio Paulista
Cacilda Ferreira, 36, segura a filha Marcela na maternidade da Santa Casa de Patrocínio Paulista
O apartamento 3 da Maternidade “Dona Mariinha” fica no fim de um dos corredores da Santa Casa de Patrocínio Paulista. O local é silencioso e permite ouvir o canto dos pássaros. É neste espaço que Cacilda Galante Ferreira, 36, dedica horas de conversas, carinho, canções de ninar e cuidados com a filha Marcela de Jesus Galante Ferreira. A criança está com 34 dias de vida e é a única anencéfala viva no País. A rotina de Cacilda começa cedo. Às 6 horas, ela já está de pé. O primeiro bom-dia que Marcela recebe é da mãe, que segura sua mão para lhe dar bênção: “Sempre falo: ‘Deus lhe abençoe minha filha’”. Depois de tomar café, é hora de acompanhar o único banho do dia da criança. “Ainda tenho medo de dar banho nela sozinha. As enfermeiras são quem fazem isso, numa banheirinha. Ela chora um pouquinho, mas logo fica quietinha.” Como não tem força para sugar, a bebê recebe leite artificial (NAN) por uma sonda no nariz. Atualmente, são 40 ml do alimento por dia. A mãe disse que a filha faz necessidades fisiológicas normalmente, como todo bebê. “Troco as fraldas de quatro em quatro horas.” Ontem, após examiná-la, a pediatra Márcia Barcellos disse que a criança passa bem, engordou 100 gramas e continua respirando com ajuda do capacete de oxigênio (parecido com uma bacia transparente, o aparelho possui um cano para entrada de ar e fica sobre a cabeça e pescoço). Marcela nasceu com apenas o tronco cerebral que a mantém respirando e os outros órgãos funcionando. A criança possui reflexos, como apertar o dedo da mãe quando é tocada. “Ela sente frio. Treme quando tiramos a roupinha para dar banho. E se é tocada na cabecinha, produz um chorinho, um gemidinho.” Prova dos reflexos da criança foi sua reação quando os jornalistas entraram no quarto para fotografá-la. Vestida com um macacão rosa-choque, tremeu de susto no berço ao ouvir a voz das repórteres e do fotógrafo. Logo no primeiro flash, soltou um “gritinho” e segurou os dedos de sua mãe com força durante as fotos seguintes. “Vocês não fazem idéia de como ela está apertando forte minhas mãos”, disse Cacilda. A criança ficou o tempo todo com os olhos abertos, bocejou e espirrou enquanto a reportagem permaneceu no quarto. FORTALEZA Desde que Marcela nasceu, no dia 20 de novembro, Cacilda não voltou para casa. E desde os primeiros dias de vida da caçula, a mãe se mantém forte. “Durmo aos pouquinhos. Toda hora acordo para ver como ela está. Vivo em função dela 24 horas. A cada dia que passa, meu coração fica mais aliviado porque tenho certeza que fiz a coisa certa.” Para ajudar a passar o tempo, assiste às missas pela televisão e escuta o CD do Padre Marcelo Rossi (o nome Marcela foi escolhido para homenageá-lo). Em muitos desses momentos, a mãe está com a filha no colo. “Pego ela bastante. Quando fica vermelhinha porque está com cólica, coloco ela em pé com a cabecinha no meu ombro para esquentar a barriga e acalmar.” A tranqüilidade no quarto onde mãe e filha ficam só é quebrada pelas visitas de familiares e amigos. Cacilda espera que Deus faça o melhor pela filha. Ela não pensa em quanto tempo o bebê viverá, mas se precisar de berço em casa, o que as irmãs usaram já está lavado. Só falta montar.

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