Um símbolo anti-democrático


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M uito se escreveu e se publicou sobre Augusto Pinochet nesses dias que transcorreram após sua morte. Uma dupla imagem acolhe o personagem: a do ditador mais sanguinário da América Latina e, ao mesmo tempo, a do governante que realizou transformações profundas na economia chilena de forma a liberalizar o seu curso rumo à modernidade. Para uma parte da sociedade chilena ele representou a dor, o trauma, o medo e a desesperança; para outra, o esplendor de um novo e próspero Chile, livre da ameaça do comunismo. Alguns chegaram a dizer que Pinochet havia sido um “déspota esclarecido”. Fez o que aconselhava a ciência, mas de maneira cruel e tirânica. Essa visão desconhece que Pinochet, no momento em que assumiu o comando do golpe que depôs Salvador Allende em 11 de setembro de 1973, não tinha a menor “ciência” daquilo que viria a ser a sua “revolução silenciosa”: uma revolução capitalista e liberal conduzida a partir do desprezo e rejeição a qualquer dimensão democrática. Logo após o golpe, predominava entre os militares mais a visão restauradora do que a fundacional, que acabaria por se estabelecer a partir da associação do regime com os economistas chilenos que haviam estagiado na Escola de Chicago. O caminho da revolução liberal já havia sido cogitado por esses economistas junto a uma parcela da direita chilena no final da década de 60. Contudo, foi o desfecho do golpe militar, marcado por uma violência tão brutal quanto desproporcional evidenciadas nas imagens do palácio La Moneda em chamas e o suicídio de Allende, que empurrou Pinochet para a definição de um projeto de cunho radical de refundação da sociedade chilena. A opção pela ditadura seria, portanto, imposta de cima, por um poder que assumiria um perfil revolucionário. Ela não resultou da fermentação de uma “utopia” capitalista que contivesse os traços de conversão da sociedade como um todo para a realização dos seus fins. Foi um ato cirúrgico de cancelamento da política entre os chilenos. Até então, não havia na América Latina uma sociedade mais politizada do que a chilena. É isso, dentre outras coisas, que dá o sentido drástico e dramático à refundação do Chile sob Pinochet. Os resultados dessa “revolução” são amargados até hoje e alguns deles são irreversíveis. Entretanto, há ainda uma reflexão importante que precisa ser feita. A supressão das liberdades, a coerção e o terror revelaram, sobretudo, uma vontade de poder intransigente, expressa desde o início na consigna “nós temos metas e não prazos”. De acordo com Tomás Moulian, o regime de Pinochet negava a Unidade Popular e, ao mesmo tempo, apropriava-se do imaginário que ela própria havia criado na sua ação cultural, na qual se difundia a idéia de que havia a necessidade de uma grande transformação e se valorizava a ditadura (no caso, a ditadura do proletariado) como positiva na construção da nova sociedade. Assim, desprezando a democracia, mas sem se afastar dela, a Unidade Popular cultivou a retórica sobre a ditadura “instrumento do bem”. Assim, em nenhum dos seus aspectos o regime de Pinochet pode ser considerado um parênteses na história do Chile. Seu principal protagonista não pode ser visto, por outro lado, como um personagem anômalo no interior da sociedade chilena. As dimensões parciais da chamada “política do autoritarismo” (personificação do poder e a baixa institucionalização) não explicam porque ele permaneceu com tanto apoio na sociedade chilena depois de sido derrotado politicamente no plebiscito de 88, de ter sido detido em Londres por crimes contra os direitos humanos e por ter sido desmoralizado por evasão fiscal. Há muitas forças insondáveis nos subterrâneos do “Chile dourado”. Como afirma Eugenio Tironi, não faz sentido idealizar Pinochet como um visionário e tampouco comemorar a sua morte como se ela fosse “fazer passar as dores que provocou ou exorcizar nossas misérias”. Melhor será refletir sobre as razões e as forças que o produziram e o sustentaram. Se Pinochet se foi nada garante que essas misteriosas forças não continuem a existir entre os chilenos. ALBERTO AGGIO é historiador e professor livre-docente de História da América na Unesp/Franca

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