<p>É com um jeito tranqüilo de falar e um sorriso constantemente estampado no rosto que o pernambucano de Surubim José Lourenço da Silva Júnior, 46, mais conhecido como Padre Júnior, recebe as pessoas. Sem fazer diferença ou esboçar qualquer tipo de preconceito, ele procura fazer com que todos se sintam acolhidos. O acolhimento, aliás, é seu lema. Pároco da Igreja São Judas Tadeu, de Uberaba (MG), Padre Júnior já é conhecido em todo o Estado de Minas e também na região nordeste do Estado de São Paulo, seja pelos seus shows, CDs, livros ou curas. Em Franca, ele participa do Hallel há seis anos e já conquistou muitos fiéis. </p>
<p><br />A Missa da Saúde, que celebra às segundas-feiras em Uberaba, atrai mais de 1,5 mil fiéis de várias cidades. A celebração acontece há 14 anos e tem como objetivo promover a cura por meio da Eucaristia. Segundo Padre Júnior, isso realmente funciona. São muitas as histórias que ele conta, inclusive de um paraplégico que voltou a andar. Apesar disso, ele não aceita ser chamado de “milagreiro”. “Não é o padre que cura, mas o próprio Deus, por meio da Eucaristia”. </p>
<p><br />Com três CDs e dois livros lançados, além de muitos shows no currículo, ele não se compara ao Padre Marcelo. “Cada um tem sua missão”, diz. </p>
<p><br />A sua missão, Padre Júnior acredita que é ajudar quem precisa, principalmente os excluídos, recuperando a auto-estima dessas pessoas. “Não fazemos assistencialismo, mas sim promoção humana, que resgata as pessoas para que possam se sentir valorizadas e ao mesmo tempo descubram que não podem ficar acomodadas e esperar uma cesta básica. Mas sim que precisam conquistar seu espaço e conseguir superar suas dificuldades”. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como o senhor começou a pregar por meio da música?<br />Padre Júnior</strong> - Resolvi fazer o primeiro CD em 1998, para ajudar uma casa espírita de Uberaba (MG) que cuidava de crianças com aids. Por ser uma instituição espírita e eu, um padre católico, teve muita gente que foi contra e disse que não tinha nada a ver. Mas eu não liguei. Na época, eu também estava construindo o templo da Igreja São Judas, onde sou pároco. Então eu decidi fazer esse CD para ajudar as duas causas. E foi um negócio estrondoso e surpreendente. Vendemos 70 mil cópias do CD. </p>
<p><strong>Comércio - Por causa desse lado musical, de gravar CDs e fazer shows, o senhor já foi comparado ao Padre Marcelo Rossi?<br />Padre Júnior</strong> - Quem sou eu! Muita gente pergunta se sou o Padre Marcelo de Minas, mas eu sempre digo que sou o Padre Júnior, diferente do Padre Marcelo, que tem carismas e dons maravilhosos que Deus deu pra ele. Mas eu não me preocupo muito com isso. A cada um de nós, Deus deu uma missão. Padre Marcelo pra mim é um santo, de uma pureza de alma muito grande. Eu não me comparo porque seria muito indigno da minha parte. Mas estou aí, aprendendo com as pessoas e é isso que importa. Saber que posso fazer a minha parte, nunca sozinho, mas com a ajuda de todo mundo. </p>
<p><strong>Comércio - Um dos trabalhos mais conhecidos do senhor é a Missa da Saúde. Como isso começou?<br />Padre Júnior -</strong> Surgiu porque eu vi que na minha paróquia os enfermos não tinham como ir à missa aos domingos. Aí eu comecei a fazer uma parceria com a prefeitura para levar os enfermos à missa na segunda-feira. Começamos com 15 pessoas. A prefeitura mandava a ambulância para aqueles que não tinham carro e a gente fazia a missa. Isso foi aumentando e acabou se tornando uma celebração conhecida na região inteira. Já tem 14 anos que celebro essa missa. </p>
<p><strong>Comércio - Essa missa dura cerca de três horas. Por que? <br />Padre Júnior</strong> - Porque ela tem toda uma estrutura diferenciada. Começa com o acolhimento, quando a gente leva as pessoas a se interiorizar naquele momento que elas levam para a celebração, com suas alegrias e tristezas. Levamos as pessoas a celebrar suas vidas, tudo que elas têm e também o que não têm. Depois tem o momento de oração, que é muito forte, quando levo as pessoas ao louvor e ao agradecimento. Depois vem o momento da oração do exorcismo, que é uma oração de libertação interior. Em seguida, tem a aspersão e imposição do santíssimo. E, durante essa missa, a gente recebe muitas manifestações que as pessoas trazem, cargas muitas negativas de quem quer encontrar um “Deus supermercado”, que resolva seus problemas imediatistas, pessoas que vêm com depressão e problemas psicológicos. Então é uma carga muito forte. E a gente procura sempre colocar as pessoas dentro de um acolhimento. </p>
<p><strong>Comércio - Muita gente atribui curas ao senhor...<br />Padre Júnior</strong> - Qualquer celebração eucarística é cura porque o próprio Deus está ali presente, independentemente do padre que a celebra. O padre é um mero instrumento de Deus, ele não é ninguém. Então não é a missa do padre Júnior que cura. O padre não é nenhum milagreiro e não tem nada de especial. É apenas você saber acolher o que recebe das pessoas e dar a elas uma perspectiva de esperança, fazer com que acreditem que podem ser curadas de várias formas, pela fé, pelo próprio testemunho, pelo resgate de pessoas que estão no fundo do poço. Eu sempre digo que o fundo do poço é o último lugar onde uma pessoa pode chegar, porque depois ela não tem mais para onde descer, então ela vai ter que dar um jeito de sair. Aí já começa a cura porque ela tem que se levantar. Para mim, o maior desafio da humanidade, da sociedade e da pessoa, em particular, é assumir essa necessidade de realmente se levantar, se reerguer. Mas também de ser acolhida. Porque se eu te acolho, é claro que você vai me acolher. </p>
<p><strong>Comércio - Teve alguma história que o tocou mais durante essa caminhada?<br />Padre Júnior</strong> - Tem. E eu conto essas histórias em um de meus livros. Tem a história de um jovem que estava paraplégico e o pai chegou com ele dentro de uma caminhonete à missa da Saúde e disse que gostaria que eu rezasse pelo garoto. Mas ele não podia entrar porque estava na caminhonete e só mexia a cabeça. Isso foi no momento em que eu estava saindo com o Santíssimo. Aí, me deu uma inspiração de querer subir naquela caminhonete, coloquei o santíssimo em todo o corpo dele e disse a ele que na semana seguinte ele ia entrar naquela Igreja andando. Ele disse que acreditava, mas que queria se confessar. Três dias depois eu fui à casa dele, ele se confessou e, na segunda-feira seguinte, entrou na Igreja andando. Isso pra mim foi um marco do que a Eucaristia é realmente capaz de fazer. </p>
<p><strong>Comércio - Por causa de histórias como essa, o senhor não tem receio das pessoas o considerarem milagreiro?<br />Padre Júnior</strong> - No começo, as pessoas achavam que eu tinha algum dom especial, que eu era algum guru. Mas não tenho nada de diferente. Aí eu fui mostrando para as pessoas que a diferença estava naquilo que elas mesmas traziam, que era a vida delas para mim e a minha para elas. E também o amor. Eu sou muito carente de amor. Acho que cada vez mais a gente se renova com o outro, amando de verdade. Todos nós temos muita coisa para a aprender. Essa experiência de dor, alegria, de morte e de nascer, cura. Uma vez, uma pessoa apontando um revólver para a própria cabeça disse que ia se matar na minha frente. Não sei de onde tirei força naquela hora, que a gente conversou e ele me deu o revólver e ficou chorando no meu braço. Hoje essa pessoa é um diácono da Igreja. Isso nada mais é do que você ter coragem de amar. Porque não adianta ficar apenas na teoria, tem que praticar também, seja com drogado, prostituta, homossexual, o rico, o pobre, o preto e o branco, sem fé, com fé, o descrente, não importa. Isso é muito pequeno em relação ao que precisa ser feito. As pessoas precisam entender que todo mundo tem oportunidade e chance de ser de Deus, mesmo quando a gente vive no mundo do indiferente, distante, materializado. A própria Igreja precisa se abrir mais para isso. E digo mais. Não devemos esperar as pessoas nos procurar. Precisamos ir ao encontro dessas pessoas. </p>
<p><strong>Comércio - Onde o senhor vai procurar essas pessoas?<br />Padre Júnior -</strong> Uma vez comprei um abadá e fui em um desses bailes de Carnaval fora de época porque fiquei sabendo que uns ex-alunos meus estavam se drogando. Quando eu cheguei lá, a cidade toda já sabia que o padre ia no Carnaval. Fui muito criticado pela imprensa, mas não liguei. Foi fundamental a minha ida porque eu consegui trazer 70 jovens de volta ao universo deles, que era a vida universitária real. Acho que você precisa mostrar a sua cara e saber que muitas vezes as pessoas criticam sem saber o que tem por trás das suas ações. É como o trabalho que faço na zona de prostituição. Eu vou às quartas-feiras lá, nas casas de prostituição. Tem uma história de uma moça que fui chamado para atender porque ela estava com convulsões depois que um cliente colocou veneno na bebida dela. Levei a moça para o hospital e, três dias depois, o médico mandou ela ir pra minha casa buscar as coisas que foram retiradas na hora de internação. Então ela me pediu um dinheiro porque não queria voltar para a zona, queria ir embora. Naquela semana eu tinha recebido um dinheiro da Alemanha, que dava para ela recomeçar a vida. Eu dei esse dinheiro para ela, que foi para Uberlândia, procurou uma tia e conseguiu um emprego de faxineira nas Lojas Americanas. Depois, ela conheceu um rapaz que era estudante de medicina, eles se casaram e ela agora é médica e faz um trabalho com prostitutas. Quer exemplo maior do que é possível com acolhimento e amor? </p>
<p><strong>Comércio - Como começou a relação do senhor com Franca?<br />Padre Júnior</strong> - Na Diocese de Franca tudo começou por São José da Bela Vista. O pessoal de lá participa muito da Missa da Saúde e começou a divulgar na região os CDs e o livro que eu escrevi. Em 1998, eu fui em Igarapava divulgar o primeiro CD e tinha um pessoal de São José lá. Daí fui para São Joaquim, Orlândia, Ribeirão Preto e Franca também. </p>
<p><strong>Comércio - E hoje, o que a cidade representa para o senhor?<br />Padre Júnior</strong> - Franca se tornou pra mim uma bênção. A gente vê a manifestação religiosa do povo de uma forma muito bonita aqui. As pessoas são fiéis, são comprometidas e há uma particularidade muito grande que é a sensibilidade das pessoas a Deus, sobretudo pela comunhão que elas têm com essa vida de Igreja, tanto jovens, como crianças e adultos. Eu fico muito espantado de ver, porque a gente tem muito costume com relação a isso no nordeste, que é a minha região. Aqui eu não sabia que era tão forte. Aqui me sinto em casa. Passei a ser francano pelo acolhimento. Porque eu acho que o acolhimento leva a gente a voltar sempre. É tudo. As pessoas que conheço me acolhem não só como padre, mas como filho, como irmão, como amigo.</p>
<p><strong>Comércio - Hoje, milhares de pessoas vão até Uberaba participar das suas missas e seus shows são sempre lotados. O senhor considera isso sucesso?<br />Padre Júnior -</strong> Acho que não é sucesso. Atribuo isso a Deus. É Ele que age. Eu não me sinto ninguém. Eu tenho muito medo de palavras como sucesso e estrelismo, porque faz a gente perder um pouco a identidade. O grande sucesso pra mim é poder entrar na vida das pessoas e elas na minha. Então isso também é um grande sucesso. Daí todas as outras coisas que vierem são conseqüência. Eu acho que isso é muito importante.</p>
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