O cenário de cada um


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A vida é uma sucessão de fatos e nós vivemos cercados de pessoas e coisas que formam um cenário. Mas é um cenário em constante transformação. Na minha juventude conheci o Geninho, um garoto simpático mais novo que eu. Sorridente, ele chegava cumprimentando todos com aqueles gestos típicos da garotada, sempre com um brilho no olhar e uma impressionante vivacidade. “E aí, cara? Beleza?” Magro, estatura média, o Geninho era goleiro no futebol de salão. Pegava um bolão! Um dia se descobriu que ele tinha um tumor na cabeça. Não demorou muito e o Geninho se foi, e com ele seu sorriso, sua alegria... Isso, obviamente, não se encaixava nos planos de quem com ele convivia ou que o conhecia. “Pôxa, Geninho, e o futsal? E o baile sábado, o encontro com aquela garota, o colégio por terminar? E os planos de faculdade, casamento, filhos? Como você se foi assim, com uma vida inteira pela frente?” Para quem compunha o mundo do Geninho, a morte dele não fazia parte do roteiro. Mas foi necessário dar seqüência no cenário em eterno movimento. Conheci também o Júlio César. Gente fina! Alguns anos mais velho que eu. Chegou de outra cidade, conquistou a todos, passou a fazer parte da turma e até casou com uma das nativas da nossa vila. Entrou para o nosso mundo. Formou família e tudo seguia bem. Um dia, porém, um derrame ou coisa assim o deixou sem movimento e sem fala, ele que mal estava na casa dos quarenta. Acabaram-se os abraços na esposa, as brincadeiras com os filhos ao voltar do trabalho, as piadas, o futebol de chácara. O JC vive agora preso a uma cadeira de rodas, imóvel, vendo em silêncio a vida correr lá fora. Isso certamente não se encaixa nos planos dele nem daquelas pessoas que formam o quadro vivo do qual ele faz parte. O cenário, entretanto, continua seu movimento. Eu gosto de rock, jazz, clássico, MPB e aprecio também a boa música caipira. Lembro-me de meu pai, nos anos sessenta e setenta, ouvindo aqueles programas da Rádio Nacional de São Paulo, onde as duplas cantavam ao vivo. Assim, conheço um pouco do gênero. Pois bem, com poucos anos de casado, e até mesmo depois de vir para Piracicaba, eu freqüentemente me reunia com meu sogro e o Roberto (o outro genro) para tomar cerveja e ouvir moda de viola. A gente quase varava a noite ao som de Tião Carreiro e Pardinho, Zé Fortuna e Pitangueira, Lourenço e Lourival, Jacó e Jacozinho e outros sertanejos da gema. Deliciávamo-nos tomando uma cerveja cremosa e ouvindo pérolas como “Lembrança”, “Chave do Apartamento”, “Meu Primeiro Amor”, “Paineira Velha”. Ficávamos emocionados com “Canção do Soldado”. Para acompanhar a cerveja, minha sogra fazia umas almôndegas divinas, com pimenta dentro. Sempre tinha também um queijo mineiro comprado no armazém do seu Geraldo. Vida difícil, não? Todavia, um dia, em 1997, meu sogro, fumante, teve um infarto e quase morreu. Isso não estava no nosso roteiro. Mudou o cenário, que porém continuou se movendo. Estas três histórias de finais tristes são apenas uma pequena parte das que eu tenho para contar, assim como cada um de vocês tem as suas. Eu vejo a vida como um quadro que se vai montando, um quebra-cabeça móvel. Mas não somos nós que montamos. Cada um de nós, penso eu, é uma peça, e assim não temos controle sobre o cenário nem conseguimos definir o roteiro. Em vez de controlar as peças, a gente fica se movendo dentro desse cenário, tentando adequar-se a ele conforme as outras peças se movimentam. O cenário que a gente idealiza parece nunca se completar. Quando uma peça se encaixa, outra que parecia firme sai do lugar, some, e sempre há alguma fora, surgem outras que parecem pertencer a outro quadro. Há uma constante mutação. O que vem a seguir às vezes é imprevisível ou inesperado. Não raro, seguimos um rumo que nunca imaginávamos. Por isso é que se deve dar o máximo valor a cada momento desses que se desfruta sem ter noção da sua real importância. Sabe aquela coisa de “era feliz e não sabia?”. Qualquer de nós está sujeito a isso. Vou lembrar-me sempre do sorriso do Geninho e ainda quero reunir-me muitas vezes com meu sogro e o Roberto para ouvir modas de viola. Talvez eu tire um tempo qualquer dia desses e vá sentar-me ao lado do Júlio César, para ficar com ele vendo o tempo passar. Embora não seja possível montar o cenário exatamente como queremos, é preciso tentar fazer o máximo ao nosso alcance para que ele seja melhor. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça em Piracicaba

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