AA morte do ex-ditador chileno Augusto Pinochet (1915-2006) virou uma página da história da América Latina que ainda deixa seqüelas e ressentimentos. O general governou o Chile com mão de ferro. Era comandante do Exército daquele país e tinha uma carreira exemplar, leal e apolítica, mas liderou o golpe mais sangrento do continente. No dia 11 de setembro 1973, tomou o poder depois de bombardear o Palácio La Moneda.
No episódio, o presidente chileno Salvador Allende (1908-1973) morreu. Há dúvidas se houve suicídio, utilizando a arma que lhe foi dada de presente por Fidel Castro (versão oficial), ou se foi assassinado pelas tropas que ocuparam a sede do governo (versão da família). Pinochet governou até 1990.
Ex-ministro da Saúde, o socialista Salvador Allende disputou a presidência do Chile e a perdeu três vezes (1952, 1958 e 1964).
Nas eleições presidenciais de 1970, como candidato da coalizão de esquerda Unidade Popular (UP), foi eleito sem maioria absoluta, com 36,2% dos votos, porém teve seu nome confirmado pelo Congresso. Marxista, iniciou uma experiência inédita no mundo, em plena guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética: liderar uma transição ao socialismo por via democrática. Decretou a reforma agrária e nacionalizou bancos, minas de cobre e algumas grandes empresas. Enfrentou a oposição da democracia-cristã chilena e dos Estados Unidos, que apoiaram o golpe. A destituição de Allende teve repercussão mundial.
Alguns anos antes, na antiga Checoslováquia (hoje, a República Checa e a Eslováquia são países independentes), uma outra experiência política também havia sido derrotada. O líder comunista Alexander Dubcek (1921-1992) havia assumido o poder em 1968 e tentava liberalizar o regime. Para isso, aboliu a censura e estimulou o debate democrático. Foi o bastante para que tropas soviéticas invadissem o país, temendo que a Checoslováquia se afastasse do bloco comunista. Dubeck foi expulso do partido e virou guarda florestal. Só voltou à política após a perestroika, quando os comunistas perderam o poder.
Quem melhor entendeu as duas derrotas, tanto a de Allende como a de Dubcek, foi o italiano Enrico Berlinguer, secretário-geral do PCI. De família tradicional, era primo de Francesco Cossiga, líder da Democracia Cristã. Discípulo e sucessor de Palmiro Togliatti, Berlinguer criticou a invasão da Checoslováquia e logo iniciou um progressivo afastamento das posições da União Soviética. Em 1973, hospitalizado por causa de um acidente de carro, escreveu três famosos artigos (Reflexões sobre a Itália, Sobre os acontecimentos no Chile e Após o golpe – no Chile) para a revista Rinascita. Neles lançou a tese do chamado compromisso histórico, uma proposta de coalizão entre o PCI e a Democracia Cristã para garantir à Itália um período de estabilidade política. O país vivia um período de estagnação econômica, com conspirações golpistas de direita e atentados terroristas da esquerda mais radical.
Berlinguer foi o primeiro líder comunista a admitir que as forças progressivas da Revolução de Outubro teriam se exaurido. Sofreu um derrame num comício e faleceu três dias depois. Um milhão de italianos compareceram ao seu enterro. E o PCI foi extinto em 1989, para dar origem ao Democratici di Sinistra (DS), que hoje governa a Itália pela segunda vez.
Hoje, há muitas esquerdas na América Latina todas no poder. A mais radical, como não poderia deixar de ser, é o comunismo cubano, liderado por Fidel Castro, gravemente enfermo. A mais liberal, sem dúvida, é a chilena, da socialista Michelle Bachelet, cujo pai foi torturado e morto por ordem de Pinochet. Os peronistas novamente governam a Argentina e a Frente Ampla chegou ao poder no Uruguai. Um líder indígena, Evo Morales, sacode a Bolívia. Os sandinistas voltaram ao poder na Nicarágua.
No Equador, um jovem economista acaba de ganhar as eleições e desbancar o homem mais rico do país. Hugo Chávez, na Venezuela, acaba de ser reeleito, assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil. Não há um modelo e ninguém sabe muito bem aonde ir. A guinada à esquerda da América Latina é resultado da derrocada do modelo econômico neoliberal. Testada em quase todos os países, a experiência foi um fracasso, com exceção do Chile, onde Pinochet privatizou até a Previdência. A economia chilena é globalizada e se diversificou. Cresce a 6% do PIB, com 8% de taxa de desemprego e inflação de 3% ao ano. Porém, não é um modelo a ser copiado.
LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista
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