Um homem entristecido. Assim pode-se definir o presidente da Francana, José Lancha Filho. Educado, mas aparentando um evidente cansaço, ele recebeu a reportagem do Comércio da Franca em seu consultório para uma entrevista na tarde da última quinta-feira. Por duas horas, ele falou sobre os problemas que o levaram a desistir de comandar o único clube profissional da cidade pelos próximos dois anos. Seu semblante estava muito diferente daquele homem que há um ano atrás se mostrava disposto a mudar os rumos da Veterana. O clube não tem jogadores, está atolado em ações judiciais, suspenso pela Federação Paulista de Futebol (FPF), não tem patrocinadores, não pode receber nenhum tipo de verba, não tem conta em banco, tem menos de 50 sócios pagantes e apenas um terço dos conselheiros com direito a voto apareceu na última eleição para presidente do clube. O descrédito é total e a extinção uma possibilidade.
Assim como seu rosto, suas opiniões mudaram. Antes, afirmou ser contrário à idéia de dilapidar o patrimônio esmeraldino para saldar as dívidas, orçadas por ele em R$ 3 milhões. “Sou a favor de vender o patrimônio, pagar as dívidas, comprar uma área distante do Centro e construir um CT”, revelou.
Sobre a parceria com a Liga Amadora de Futebol da cidade, Lancha foi contundente: “Eles não apresentaram os nomes dos empresários que iriam investir na Francana em nenhum momento. Nem diante do prefeito”, disse. Indagado se deixaria o cargo antes do dia 31 de dezembro, ele disse que sim. “Mas só se aparecer alguém honesto e de bons princípios”, disse. O presidente alviverde não quer renunciar. É questão de honra. Só que ele próprio reconhece poder ser, esta data, tarde demais para o clube. Por isso diz tratar do assunto. “Estamos conversando com treinadores interessados em assumir o time. Quero deixar a equipe montada para que o próximo presidente tenha condições de lutar por dias melhores”.
De qualquer forma, sábado, o presidente do Conselho Deliberativo, Gabriel Oliveira, publicou um edital de convocação para os conselheiros esmeraldinos marcando uma reunião no próximo dia 19. Na ocasião, deverá ser marcada a data da eleição para presidente. Ninguém sabe se chapas serão inscritas. Lancha também não.
Comércio da Franca - O senhor deixa a Francana no dia 31 de dezembro. Há alguém para substituí-lo?
José Lancha Filho - Não.
Comércio - Nomes como Gilson de Souza, Riad Salloum e Moacir de Almeida já disseram que não assumirão o clube. Qual a solução, pois até o presidente do Conselho Deliberativo, que é intimamente ligado ao senhor, irá embora? Ficará um vazio muito grande ...
Lancha - É uma situação pela qual eu não gostaria de viver. Nós vamos tentar buscar alguém que se interesse pela agremiação. Gostaria de achar uma pessoa honesta, de bons sentimentos e boa formação moral, que declinasse a vontade de assumir o clube. Nós ajudaríamos com o que aprendemos.
Comércio - Dentro do grupo que o apóia não há ninguém disposto a permanecer?
Lancha - Acho que não. Somos um grupo fechado e penso que todos deixarão o clube comigo.
Comércio - O senhor já conversou com alguém sobre este assunto na Francana?
Lancha - Sim. Umas vinte pessoas.
Comércio - Há alguém interessado?
Lancha - Não.
Comércio - Dentre elas, há alguém que faça parte da Liga Amadora de Futebol?
Lancha - (...) Não me comprometa.
Comércio - A negociação com a Liga Amadora foi algo positivo?
Lancha - Não. Não foi e não é. Poderia ser se a Liga permanecesse na linha que começou a conversar conosco. Buscávamos caminhos para arrumar dinheiro para o clube. A Francana é vendável. Se há um bom produto, as pessoas compram. Foi aí que falhamos. Não conseguimos vender a quantidade necessária de eventos que a Francana precisava. O próprio Festival de Prêmios deu prejuízo em alguns domingos.
Comércio - O nome Francana perdeu prestígio? Está em descrédito e próximo da extinção?
Lancha - Não acredito em extinção. O que existe é uma desconfiança com o que uma diretoria fará com o dinheiro arrecadado. Estão sempre com um pé atrás. É uma “mineirice”. A Francana é um nome muito forte. São quase cem anos de portas abertas.
Comércio - O senhor mesmo disse que não há nomes para substituí-lo. Em sua eleição não houve chapa. Com sua saída, até o presidente do Conselho Deliberativo, Gabriel Oliveira, irá embora. Tudo leva a acreditar que a Francana não tem mais jeito. Há em Franca alguém em condições de dirigi-la?
Lancha - Corrêa Neves Júnior, seu patrão. É o único na cidade que pode tocar a Francana. Basta querer. Ele tem a imprensa ao seu lado, inteligência, dinheiro, motivação, tempo e grandes amizades.
Comércio - A possibilidade de uma parceria com a Liga Amadora rendeu muitas críticas ao senhor. Por que a negociação não deu certo?
Lancha - Jamais dissemos à Liga que eles iriam pegar os problemas judiciais do clube ou as dívidas passadas, como aconteceu conosco quando entramos. Pleiteamos o direito de ver o projeto da camisa da Francana e a reserva de oito espaços publicitários no Lanchão. O presidente da Liga (Eurípedes Gonçalves), sentado aí (aponta o fundo de seu consultório) disse: “Isso não pode”. Perguntei quantas placas eles venderiam já que há 45 espaços no estádio, com possibilidades de chegar a 60. A resposta foi doze. Doze mais oito são vinte. Restavam 25. Nosso pedido não é nada, pois teríamos de tocar as categorias de base e pagar os acordos judiciais que estamos fazendo. A parte social do clube não dá dinheiro. Ela é um peso. Por causa disso, o negócio não foi para a frente.
Comércio - Por que não houve contato direto entre o senhor e os empresários ligados à Liga?
Lancha - Sou aberto ao diálogo. Penso estar de portas abertas a todos os que desejem ajudar. Nossa má vontade começou a partir do instante em que surgiu a fotografia no jornal do cidadão chorando (Lancha refere-se a Eurípedes Gonçalves, presidente da Liga, quando revelou o encerramento das negociações sobre a parceria por causa da exigência de manter oito espaços no Lanchão). Foi aí que percebemos estar muito pra baixo do nível que a gente gostaria de manter na vida. A partir disso, todos decidiram sair.
Comércio - A foto gerou esse sentimento. Por que?
Lancha - Isso foi uma jogada. A pessoa se colocou acima de tudo e atribuiu a nós a culpa pelo insucesso da negociação. E não é verdade. No dia seguinte, o prefeito (Sidnei Rocha) pediu aos representantes da Liga que fossem ao seu Gabinete, com os empresários que financiariam o acordo, a fim de saber quanto cada um daria. Não apareceu ninguém. Aqui não apresentaram um plano de trabalho. Eles me mostraram um esboço feito pelo Wantuil Rodrigues. Sobre o dinheiro, nada.
Comércio - Sente-se vítima de um engodo?
Lancha - Eu me sinto frustrado porque a Liga tocando o futebol profissional me permitiria realizar o sonho de prestigiar ao máximo as categorias de base. Para mim, sair do foco das críticas que o futebol profissional reserva a quem o dirige seria uma maravilha. Lastimo por mim, pela Liga e por Franca.
Comércio - O senhor chamou Eurípedes de “maricas”?
Lancha - Não. Jamais citei nomes. Homem que chora, no meu tempo de menino, era chamado de ‘maricas’. Ontem, fui cumprimentado por um cidadão por ter usado essa expressão para definir homem que chora.
Comércio - O senhor disse que esse foi o ano mais difícil da Francana. Por quê?
Lancha - Tivemos muito trabalho. Nosso projeto era grande. Queríamos reconduzir o time a uma situação digna. Procuramos pagar todos direitinho e entrar em acordo com aqueles que processaram o clube. Procuramos a TV Record e eles nos disseram que nunca ninguém havia ido até lá para entrar em um acordo. Nosso projeto era conduzir a Francana até 2012, ano em que gostaríamos de estar na Série B do Brasileiro. Aliás, esse é o melhor torneio do País. Os times que o disputam são campeões de renda. A Série A dá prejuízo.
Comércio - É verdade que o senhor negociava há seis meses com uma empresa capaz de assumir o clube?
Lancha - Tínhamos contatos com uma empresa que estava disposta a investir aqui. Esse tipo de negociação é difícil e demorada, mas já havíamos percorrido um bom pedaço. O clube é pequeno e de pouca visibilidade. O Paulista da Série A-3 é um campeonato ruim com duração de apenas três ou quatro meses. Não dá vitrine para o mundo. Mal você vê os resultados nos jornais nas segundas-feiras. Nosso cacife é baixo. Mas conseguimos mandar para eles um trabalho que explicava o que é o clube. Colocamos tudo à disposição deles, inclusive a parte social. E eles nos ouviram interessados. Vou apresentar ao próximo presidente tudo o que fizemos e um eventual interesse desses empresários na Francana.
Comércio - A cidade não gosta mais da Francana?
Lancha - Antes de assumir o cargo de presidente muitos me disseram que faltava credibilidade ao clube. Emprestei meu nome acreditando que isso fosse verdade. Não é. O que falta é amor, amor pela Francana. Em mais de um ano duas pessoas me procuraram para ajudar a Francana. Em uma cidade que ama o time deveria haver pelo menos duas mil. Falta amor. Torcida de vitória é uma coisa, todas as cidades têm. Gosta-se da emoção, e muito. Agora, aquela torcida interessada em ajudar, dar uma contribuição, uma idéia, não existe. E deveria existir.
Comércio - Por isso uso a afirmação: o clube está com os dias contados. Não tem presidente, jogadores, patrocínio e nem o amor de sua torcida ...
Lancha - Espero que você esteja completamente errado.
Comércio - Há possibilidade do senhor voltar atrás e não sair no dia 31?
Lancha - Não. Isso está decidido.
Comércio - As ações judiciais não podem acabar com a Francana?
Lancha - É um grande problema. A Francana ainda existe por possuir patrimônio...
Comércio - Mas ele está completamente indisponível.
Lancha - Sim. Só que a única maneira de salvar a Francana é dispor desse patrimônio.
Comércio - O senhor tinha uma opinião diferente há um ano atrás.
Lancha - É verdade e eu estava errado. Na realidade, a Francana tem de mudar seu patrimônio. Usar quatro ou cinco alqueires para fazer um Centro de Treinamento moderno, com lugar para abrigar jogadores, comissão técnica, restaurante, salas de musculação, campos de treinamento. Tudo fora da cidade.
Comércio - A única maneira é vender o Nhô Chico e usar o que restar do dinheiro para isso?
Lancha - Sim. O patrimônio da Francana vale, aproximadamente, R$ 9 milhões e com um terço pagaríamos todas as dívidas O que restar pode ser usado no CT.
Comércio - Qual o caminho para receber a verba de R$ 15 mil da Prefeitura Municipal já que a Francana não tem conta bancária e perde todos os recursos obtidos para pagar dívidas com a Justiça?
Lancha - Não sei. Às vezes a gente acha um caminho que depois acaba. Recebemos através do Atlético (time da Várzea). Depois a própria pessoa que deu a solução depois embargou pois acharam que era muito dinheiro para um clube de várzea. Quem entrar aqui, terá de encontrar uma solução para isso.
Comércio - É verdade que o senhor e seu grupo colocaram R$ 100 mil na Francana?
Lancha - Claro. Basta fazer as contas para ver como o clube sobreviveu nesses meses.
Comércio - O dinheiro será cobrado futuramente ou virará doação?
Lancha - Cobrado, jamais. Provavelmente se tornará “FP” (Fundo Perdido), né. Fundo Perdido. Ou pagamento pela ousadia de ter sido presidente da Francana.
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