As esquinas de Franca já não são mais as mesmas. Elas viraram quitandas. Frutas frescas, com qualidade e preços populares, são vendidas por ambulantes, muitos dos quais vindos de outras cidades ou Estados. Alguns empilham os caixotes. Outros lançam mãos de carriolas. E há os que têm pequenos automóveis com carroceria. Nesse negócio em que a presença de principiantes é minoria, e em que as distâncias não são obstáculos, alguns relatos mostram um comércio que vai de cajus do Nordeste a abacaxis cultivados nas redondezas de Franca.
João Alonso Filho, 63, tem ponto na Avenida Major Nicácio há 10 anos. Ele vende abacaxis e laranjas trazidos de Bebedouro. Nos finais de ano, uvas de Pedregulho. Por mês, lucra em média R$ 600, mas jura já ter conseguido R$ 3 mil. “Sempre vendo frutas da época. E quando faz calor, vendo mais. No frio, menos”, explicou. Do Fórum, alguns quarteirões abaixo de seu ponto, vêm os compradores mais assíduos. “Gente da nata, gente poderosa”, gaba-se João.
Clésio do Nascimento, 42, não tem problemas com seus pêssegos e figos, vindos de Delfinópolis. Ele fica perto da Praça do Itaú, debaixo de um sol escaldante. Dezoito anos atrás, ele trabalhava como pedreiro. Depois de um acidente que afetou sua coluna, decidiu mudar de profissão. Contratou um ajudante para carregar peso. “Os figos e os pêssegos que vendo são especiais e nenhum supermercado da cidade tem. Tenho uma máquina que limpa o figo e seleciono o pêssego: os dois são perfeitos para fazer doce”, disse. O ambulante ainda disse ter 150 clientes habituais, a maioria mulheres, que compram cerca de 2 quilos de figo por dia.
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Nem todos os “feirantes” residem em Franca ou têm na cidade um ponto fixo. Gilvan Ribeiro, 42, empurra sua carriola na Praça do Itaú e nas Avenidas Presidente Vargas e Brasil. Mora em Guaíra, a 120 quilômetros de Franca. Lá, aluga uma chácara na qual cultiva seu produto: “pimenta bode, malagueta, comari e biquinho, aquela que não arde”, contou. Vem para Franca todo mês por uma semana, sem data fixa, e no resto do tempo perambula por Barretos, Ituverava, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto.
Segundo ele, seus compradores vão de crianças a adultos, pois “passa na televisão que pimenta não faz mal. E o Fantástico disse que faz bem. Então, o pessoal compra”.
Já Wilson Neves, 31, é de Pitangueiras e traz goiabas dos sítios de Itaquaritinga, há sete anos, para vender em Piracicaba e em Franca. “Um dia aqui, outro lá. Sempre rodeando pelo centro da cidade”.
Diferente desses dois, Joaquim Sousa Santos Neto, 40, que mora em Açu (RN), não usa carriola: empilha as embalagens de seus cajus cearenses. Passa por Franca uma vez por mês, e depois segue rumo a 25 cidades de São Paulo, duas em Minas Gerais e duas no Paraná. Além de deslocar-se por três estados, ele circula o tempo todo em Franca. “O melhor lugar para venda é na frente dos bancos. Mas os fiscais chegam, mandam sair”.
Em comparação com Joaquim, que trabalha com frutas desde os oito anos de idade, e está há 16 vendendo cajus em Franca, o goiano Jurandir Rodrigues de Sousa, 38, é um iniciante. Na cidade há nove meses, é ambulante há um mês. Sofreu um acidente num supermercado onde era empregado e, enquanto aguarda o seguro, sustenta as duas filhas e a esposa com o dinheiro das mangas. “Cinco mangas rosas por R$ 2 e quatro mangas comuns por R$ 2. Compro da Ceasa”, revelou, salientando que a região central é o melhor lugar para os ambulantes. “Tenho de mudar de lugar de quinze em quinze minutos. Os fiscais chegam e mandam ir embora”, argumentou.
Por dia, sai de sua banca uma média de 150 mangas, entre 7 horas e 8 horas, turno também preferido pelos seus colegas. As donas de casa são as que compram mais.
MEDO DOS FISCAIS
Os vendedores ambulantes de frutas compartilham algumas características. Formam clientelas fiéis e conseguem uma renda média de R$ 500 por mês. Donas de casa e fabricantes de doce são as principais compradoras. Ninguém reclama da concorrência. São unânimes em dizer que “fruta vende bem”. Os preços são acessíveis como os dos figos de Clésio (R$ 3,50 o quilo).
Apesar disso, temem os fiscais. Para Joaquim, “seria bom ter uma taxa. Esse valor seria convertido em ganho para a cidade, aplicado nos ambulantes ou nas instituições de caridade. A gente trabalharia e todo mundo ganharia”, concluiu.
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