Fui demitido


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“Na vida você tem que ter bom senso, equilíbrio, jamais fechar portas. Vou deixar as portas abertas e digo mais: o que precisarem de mim, estou disposto a colaborar, afinal, sou Abicalçados”
“Na vida você tem que ter bom senso, equilíbrio, jamais fechar portas. Vou deixar as portas abertas e digo mais: o que precisarem de mim, estou disposto a colaborar, afinal, sou Abicalçados”
<p>Sessenta e três anos de vida, 24 deles como executivo do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Franca). A trajetória profissional de Ivânio Batista não se resume ao sindicato, mas é de lá que o executivo guarda suas maiores realizações profissionais. Após divergências com Jorge Félix Donadelli, atual presidente do Sindifranca, Ivânio ‘deixou’, no dia 13 de novembro, o cargo que ocupou desde 1982. Os rumores de que a convivência entre os dois não era das melhores começaram em setembro e não chegaram a ser desmentidos nem por Ivânio, nem pelo próprio Donadelli.</p> <p><br />Apesar disso, o executivo garante que não saiu do sindicato por vontade própria. “Fui demitido”.</p> <p><br />Formado em Direito, casado e pai de três filhos, todos adultos e graduados, o executivo se dedica agora à família, à Abicalçados (Associação Brasileira de Calçados) e aos projetos da Apex (Agência de Promoção de Exportações e Investimentos). Mas, em momento algum, descarta a volta ao posto de executivo no Sindifranca. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Por que o senhor deixou o Sindifranca?<br />Ivânio Batista</strong> - Eu não deixei o Sindifranca, o Sindifranca me deixou. Por livre e espontânea vontade, não sairia. Fui demitido. Foi um acordo unilateral, ou seja, ele (Jorge Donadelli) queria que eu saísse. Eu amo o que faço. Amo o sindicato. A minha intenção seria continuar, se houvesse condições para isso. Já que não houve, desejo muitas felicidades, muito sucesso e que continuem lutando pelo setor em Franca. </p> <p><strong>Comércio - O que o sindicato representou na sua vida?<br />Batista-</strong> Uma realização profissional de muito orgulho. Pude fazer muito por essa cidade, pelo setor, não só de Franca, mas do Brasil, modestamente. Sei que sempre dei o melhor de mim pelo setor. Se não fiz mais é porque tenho meus defeitos, minhas fraquezas. Não consegui fazer tudo aquilo que eu queria. Saio com a consciência muito tranqüila. </p> <p><strong>Comércio - O presidente da entidade chegou a fazer alguma proposta para que o senhor ficasse?<br />Batista</strong> - Na verdade, sim. Em uma conversa com o atual presidente, ele havia me proposto que a partir da minha aposentadoria, que será em janeiro, que eu continuasse no sindicato como um secretário-executivo. Mas com um salário de um terço do que recebo agora. Achei aquilo realmente uma proposta inaceitável. Dentro do que sou profissionalmente, pelo reconhecimento que tenho nas lideranças do setor de todo o Brasil, jamais poderia aceitar. </p> <p><strong>Comércio - O senhor aceitaria outro tipo de proposta dentro de uma redução de salário?<br />Batista</strong> - Sim. Aliás joguei abertamente sobre isso. Porque com a aposentadoria, o meu salário seria complementado, não teria de ser o atual. Isso, até a última conversa que tivemos, não estava inteiramente descartado. </p> <p><strong>Comércio - Como era o seu relacionamento com Jorge Donadelli antes dele ser eleito presidente do sindicato? Chegaram a ser amigos, colegas de trabalho?<br />Batista</strong> - O Jorge foi tesoureiro no sindicato na gestão do José Carlos Brigagão, em 1982. Mas nosso relacionamento começou muito antes. Eu freqüentava a fábrica do Jorge, vendia borrachas da MSM e adesivos quando ele começou a fábrica na Voluntários da Franca. </p> <p><strong>Comércio - Era um relacionamento de amizade...<br />Batista</strong> - De amizade, sim. De muita amizade. Era um relacionamento muito sadio. </p> <p><strong>Comércio - Se vocês eram amigos, a sua saída do sindicato se deveu meramente a questões financeiras?<br />Batista</strong> - Foi por questões profissionais. O Jorge assumiu dando uma nova dinâmica ao sindicato, dentro da visão daquilo que julga ser o melhor para o setor. E dentro daquilo que ele julga ser uma das prioridades, colocou a redução das despesas da entidade, que realmente são altas. Dentro dessa redução, ele pretendia reduzir meu salário após a aposentadoria. Foi a forma que encontrou. É a maneira que ele enxerga de reduzir custos. Eu não concordo, mas se ele quer assim, ele é o presidente. </p> <p><strong>Comércio - O senhor concorda que deva haver redução de custo, mas não esse tipo de redução...<br />Batista</strong> - É estranho quando vejo em Franca essa questão de se olhar pelo salário e não pela competência, não por aquilo que a gente pode fazer pelo setor. Tenho colegas que exercem a mesma função em sindicatos fora de Franca e que ganham exatamente o dobro do que eu ganhava e ninguém diz que é muito. Mas, fazer o quê? </p> <p><strong>Comércio - Quem de vocês (Ivânio ou Donadelli) é mais conservador?<br />Batista</strong> - Não sei se é questão de conservadorismo ou não, mas havia uma certa resistência por parte dele a que eu fosse executivo da Abicalçados e do Sindifranca. Algumas vezes ele questionou esse posicionamento dúbio. Só que não havia isso. A Abicalçados e o Sindifranca sempre se pautaram pelos mesmos interesses, que é a defesa da indústria. </p> <p><strong>Comércio - O Sindifranca ainda tem representatividade?<br />Batista</strong> - De uma coisa posso me orgulhar. Já recebemos “n” visitas de autoridades, inclusive do Ministério do Trabalho que estavam pesquisando sindicatos patronais pelo Brasil afora e no relatório deles disseram que não tinham visto ainda um sindicato tão organizado quanto o nosso. Somos o único sindicato patronal que tem informação mês a mês das exportações locais em pares e em dólares. Todos os demais dependem das informações da Secretaria de </p> <p><strong>Comércio Exterior. Comércio - E a representatividade...<br />Batista</strong> - O fortalecimento do sindicato, a representatividade, com todos os presidentes anteriores, sempre foi muito forte, muito respeitado. O Sindifranca tem 140 associados em um universo de 780 empresas. Todos os exportadores estão associados. Juntas, as 140 empresas correspondem a 80% da produção. A representatividade é forte, mas poderia crescer ainda mais. Falta espírito corporativo em Franca. </p> <p><strong>Comércio - O senhor disse ‘sempre foi’. Continua sendo?<br />Batista</strong> - Continua sendo. </p> <p><strong>Comércio - O senhor voltaria a trabalhar no sindicato se fosse chamado de volta?<br />Batista</strong> - Na vida você tem que ter muito bom senso, equilíbrio, jamais fechar portas, não criar inimizades. Eu saí da Samello depois de oito anos e várias vezes recebi convites para voltar, em posto mais graduado do que havia deixado. Por que eu iria fazer diferente com o sindicato que tanto amo? Vou deixar as portas abertas. E digo mais: o que precisarem de mim, estou disposto a colaborar, afinal, sou Abicalçados. </p> <p><strong>Comércio - Quais as realizações de que mais se orgulha?<br />Batista</strong> - (suspira) Foram muitas. Mas o aterro sanitário foi um deles. Com ajuda da Promotoria do Meio Ambiente, que entendeu o problema da cidade, a Cetesb, a Prefeitura, conseguimos ter um aterro-modelo. Coube a nós, Sindifranca e Amcoa (Associação de Manufaturados de Couros e Afins), fazer as obras. Eu me orgulho muito de ter estado à frente deste projeto que hoje é uma realidade. </p> <p><strong>Comércio - Quando o senhor fala da sua saída do sindicato deixa transparecer uma certa angústia. Agora, depois de mais de duas semanas, há mágoas?<br />Batista</strong> - É difícil definir esse sentimento. Conversando com o Abdala (Jamil Abdala, presidente da Francal) em uma viagem, ele disse que meu coração estava lá naquela sala. Realmente está. Mas a sala continua sendo minha. Houve um convite gentil da diretoria para que eu ficasse na sala, na sala da Abicalçados. </p> <p><strong>Comércio - Mas o senhor vai ocupar apenas a estrutura física...<br />Batista</strong> - É, é diferente. Você pode acabar sendo um intruso no ninho, não é? (brinca). Mas o que posso dizer é que a presidência passa, o sindicato permanece.</p>

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