Um espírito sossegado é o bem mais precioso que se pode desejar. Parece fácil alcançar tal ventura, mas não é. Para afligir a alma, abalar uma convicção, não é necessário muito: basta uma dúvida. A dúvida é um dos sentimentos que mais desgastam a pessoa e lhe roubam energia vital. Os jovens normalmente são cheios de dúvidas, incertezas, medos, e isso, a meu ver, explica certos comportamentos que eles têm, como tornar um martírio o simples ato de escolher uma roupa para sair.
A dúvida faz a pessoa andar em círculos, perder-se, imobilizar-se, esgotar-se na batalha consigo mesma. No fundo, a gente tem necessidade de certa segurança para tomar decisões, escolher caminhos, definir ações, estabelecer objetivos e metas; deseja sentir solidez no chão que pisa. Isso é difícil porque as opções muitas vezes se nos apresentam como enormes pontos de interrogação, e a cada um que eliminamos surgem dois, e eles crescem em progressão geométrica, e nos envolvem, e o solo parece movediço. Disse Goethe: “Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida”. O momento seguinte é incerto. Muitas dúvidas que nos acometem decorrem do nosso próprio dualismo, de certa ambivalência. Pensamentos antagônicos, conflitos internos, vontades divergentes. Medos e inseguranças atravessam nossas sendas, habitam os porões da nossa mente, travam incessante batalha com a coragem, a firmeza, a força que procuramos ter.
Riobaldo, em “Grande Sertão Veredas”, definiu bem isso ao dizer: “a natureza da gente é muito segundas-e-sábados”. Dúvidas todos têm e o modo de lidar com elas é determinante para o êxito ou o fracasso. Perante algumas delas não se deve deter demasiado, pois isso significa ficar para trás, já que o tempo não pára à espera de que sejam vencidas. O caminho único de repente se bifurca, desdobra-se, multiplica-se. Qual seguir? A escolha precisa ser feita e, uma vez definida resta seguir o rumo escolhido e deixar o mais para trás. Se lá na frente se descobre que a melhor opção era outra, paciência. Como ter firmeza, um porto seguro, se o próprio planeta que nos abriga está suspenso e girando no ar?
Mas há a dúvida salutar, sinônimo de desconfiança. “É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos” (Orson Welles). A dúvida, dizem, é mãe da reflexão. De fato, duvidar, questionar é acender o sinal de alerta, é acionar o mecanismo que ajuda a detectar certas armadilhas, a descobrir que algumas pessoas, coisas ou situações não são o que aparentam, a evitar julgamentos precipitados. Duvidar de si mesmo revela vontade de melhorar, de aperfeiçoar, de crescer.
Vendo ruir sonhos, desmoronar ideais, o indivíduo por vezes se sente desalentado e tomado por dúvidas. Vale a pena ser honesto em meio a tanta corrupção? Deve-se dar o melhor de si enquanto muitos empurram com a barriga? Há que se ter idealismo se quase ninguém parece se importar com nada? Claro que sim. O ser humano, a despeito das suas limitações, deve cultivar qualidades que o ajudem a superar os maus sentimentos nos seus conflitos íntimos e na coexistência. Deve ter uma rigidez de princípios tal que o faça agir movido não pelas influências negativas do meio, mas pela sua força interior. Probidade, respeito, ética, devem estar acima de tudo. Desanimar, jamais. Vida é pulsação, é ação. As coisas nem sempre saem como a gente planeja, os resultados nem sempre são os esperados, mas para o barco não afundar é preciso remar. Às vezes parece que o mundo está de costas, tantas dúvidas juntas, tantas guerras estúpidas, tantas perguntas sem respostas, tantas feridas expostas. Mas é preciso seguir. Ora hesitante, ora decidido, em certos momentos firme, noutros vacilante; por vezes triste, noutras exultante; um dia apagado, outro, inflamante; meio certeiro, meio errante; às vezes descrente, noutras confiante; aqui em linha reta, ali oscilante; ora náufrago, ora navegante; hoje fixo, amanhã itinerante; um minuto consciente, outro delirante... Em frente, inobstante.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça em Piracicaba
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