No meio do lixo


| Tempo de leitura: 2 min
Ernesto Feliciano Filho, 70, que há mais de 25 anos é catador de lixo e guarda as sucatas na própria casa
Ernesto Feliciano Filho, 70, que há mais de 25 anos é catador de lixo e guarda as sucatas na própria casa
Uma verdadeira montanha de lixo. Papelão, jornais, revistas, latas, pedaços de ferro, concreto, garrafas, entulhos e muitas quinquilharias. São toneladas de sucata pelos corredores e quintal da casa. A bagunça invade a calçada e chega a impedir a passagem de pedestres. Em meio a casas de classe média, na Rua Amália Pimentel, uma se difere, a nº 2708, de Ernesto Feliciano Filho, 70, que há mais de 25 anos é catador de lixo e guarda as sucatas na própria casa. Por mais que esvazie vendendo parte de seu estoque, ele não se desfaz de nada e tem uma explicação simples para a mania: uma poupança para as horas de dificuldade. “Não posso vender tudo na mesma hora, senão eu gasto todo o dinheiro de uma vez. Preciso pagar água, luz e comprar comida e remédios nos próximos meses”, diz ele que vende a sucata aos poucos sempre que precisa de dinheiro. Ernesto, que é pai de três filhos casados, mora com Iracema Fernandes da Silva, 58. Os dois são aposentados e recebem juntos R$ 700 todo mês. Para ele, é pouco. O filho mais velho de Ernesto, que não quis se identificar, não sabe mais o que fazer. “Não aprovo ele ficar guardando tanto lixo. Já fui intimado para me explicar com o promotor, pois a casa em que ele mora está no meu nome, mas é usufruto dele, então não posso obrigá-lo a sair de lá ou retirar os lixos”. Apesar de querer guardar para vender depois, Ernesto reconhece que mais da metade do seu estoque de entulho já não serve mais para ser vendido. “Alguns papelões molharam e eu não consigo mais vender, outros objetos ninguém quer comprar, e alguns eu guardo porque um dia posso precisar”, diz ele. A Vigilância Sanitária já foi acionada várias vezes pelos vizinhos. Depois de inúmeras limpezas feitas no local, eles aguardam um mandado judicial para tentarem resolver o caso. “Já recebemos diversas reclamações. Só no ano passado foram dez pessoas. É uma situação de risco tanto para ele quanto para os vizinhos. O acúmulo de materiais traz pragas urbanas, como ratos, escorpiões e baratas” disse o fiscal sanitário Vairton Reis de Paula. Ernesto já recebeu orientações da Vigilância, mas não atendeu a nenhuma e agora o caso foi levado ao Ministério Público. “Ele fala que vai parar de juntar, mas a cada dia só aumenta a quantidade de material. Agora o caso aguarda uma decisão na promotoria”. Uma esperança para os vizinhos é a decisão do próprio Ernesto. Ele garante que vai parar com as coletas e acabar com todo o lixo. Ele pensa em deixar de ser catador, mudar de ramo ou passar a recolher apenas papelão. “É o meu meio de sobreviver, mas eu não agüento mais as dores nas pernas de tanto andar. Quero parar, ver se arranjo algum outro bico para fazer. Até o Natal pretendo esvaziar a calçada e, no máximo até fevereiro, quero ter vendido tudo que ainda serve para reciclar. O resto vou jogar fora”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários