“Fazer samba não é contar piada/E quem faz samba assim não é de nada/O bom samba é uma forma de oração”. O trecho da letra de Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, pode ser invocado por qualquer um que goste do gênero. Hoje, especialmente, já que é considerado o Dia Nacional do Samba. A data foi instituída pela Câmara de Vereadores da cidade de Salvador em 1940, como parte das homenagens ao compositor Ary Barroso, que um ano antes lançara Aquarela do Brasil, uma das músicas mais conhecidas, executadas e regravadas fora do Brasil.
Comemorações espalhadas pelo País é o que não vai faltar. De origem plural, o samba é um ritmo que se disseminou pelo Brasil.
Bahia, Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados fazem samba. Cada um à sua maneira, é claro. No Rio, temos o samba de morro; em São Paulo, o samba de Adoniran Barbosa ou a comunidade Samba da Vela; em Minas, os grupos de samba de raiz com aquela influência do Clube da Esquina; na Bahia, o samba de roda do Recôncavo Baiano, que foi tombado como Patrimônio Imaterial da Humanidade no ano passado.
Em Franca também temos samba. Embora aqui não se ache redutos para ouvir esse tipo de música, há pelo menos uma pessoa que faz o gênero renascer e permanecer vivo na cidade: Maria das Graças Silva, 58, mais conhecida como Bah. Mineira de Passos, mora em Franca há décadas. E também há décadas dedica parte do seu tempo a escrever crônicas, poemas e sambas. Autodidata, Bah não sabe tocar nenhum instrumento musical. Compõe suas canções no “lá, lá, lá” e músicos experientes, como Ronaldo Sabino, a transcrevem para a partitura.
Criada na fazenda, ouvindo o pai e os tios tocarem e cantarem músicas de Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues, Bah não podia deixar de ser uma admiradora do gênero aniversariante de hoje. Sua voz lembra muito a de sambistas tradicionais como Dona Yvone Lara, Dona Edith do Prato, Dona Inah e Clementina de Jesus. Suas composições falam, principalmente, de questões raciais e trazem a pegada do samba de raiz. “Nas senzalas urbanas/eu vi um menino chorando/outro ri/um sorri com a bola no pé/outro chora por não ter café, leite e pão para comer/ não chora menino porque/amanhã vai ter leite, pão e café para beber/acredite em você e vem ver/ um igual com a bola no pé a correr”, diz a letra da música Milionários do Quilombo, mais recente composição de Bah, que vai concluir a 8ª série este ano.
Bah não tem nenhum CD gravado e nem grandes pretensões de uma carreira de sucesso. Mas quer mandar um projeto para o Ministério da Cultura para poder gravar suas músicas. “Como falo de questões raciais, acho importante que as pessoas conheçam e acho que posso conseguir algo pela Lei Rouanet”, disse.
Mas por que é tão importante ter uma pessoa que faça esse tipo de música em nossa cidade? Porque o samba é um patrimônio brasileiro. É uma manifestação que surgiu da colonização do país, da mistura de índios, pretos e brancos. É uma música única, que já é exportada, e com muito sucesso, para outros países. Além disso, é um gênero que sempre se renova. A cada ano surgem novos artistas e grupos que fazem samba, seja preservando as raízes mais primárias do gêneros, como os grupos Casuarina, Galocantô e Semente; seja inovando, como Max de Castro com disco Samba Raro ou Marcelo D2, com Em Busca da Batida Perfeita.
Apresentando-se em escolas, centros comunitários e projetos sociais, Bah ajuda a disseminar o gênero pela cidade. Sua neta, de apenas 10 anos, é um bom exemplo. Já bate um pandeiro e canta um bom samba.
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