Diria muita verdade vivida e glorificada por familiares, por sensíveis, por nostálgicos de um passado em plenitude não globalizável, tempo esse sem os desvios escabrosos do mundo virtual, sem os escândalos televisivos, mistos de vendas exageradamente sugestíveis e violência glorificada à busca de ibope e furos noticiosos. No mundo de meu fusca tudo era belo, saudável e desprovido de tempestade, tsunami, terremoto de diferentes significados; menores explorados, lançados ao lixo, sem luxo, desmaternalizados, vendidos ao sexo, aos traficantes de órgãos, ao mundo da droga.
Na vida de meu fusca, o mundo era mais suave, estável, poder-se-ia ir a pé ao cinema, voltear-se no footing da praça, ainda desprovida das lindas estátuas e da água de agora. Não era uma praça recauchutada magnificamente. Exibia-se de uma simplicidade básica, modesta, sob o reinado do relógio do sol e de alguns recursos paisagísticos, a praça oferecia cenário onde se iniciavam amores verdadeiros, não-ficáveis, assexuados, de um platonismo romantizável, em seus inícios eventuais.
Diria que Franca ainda não viria a sofrer os desmandos de hoje.
Era feliz. Abrilhantavam-na as moçoilas de azul-marinho, vistosas em saias plissadas, mangas compridas, gravatas estilizadas, luvas e meias brancas, sapatos pretos de verniz, tudo igual, visto serem cuidados das Irmãs de São José, fornecedoras da uniformização. Diria gostar de ouvir os alaridos e gorjeios felizes dos estudantes, pós-passeata, desfile ou procissões festivas, cenas onde se semelhavam às aves em cantoria de arribação.
Diria ter saudade da Capela do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, relíquia e acervo abandonados, esvaindo-se em cacos em tenuíssimas partículas de terra seca e outras substâncias, que se desprendem de sua abóbada rica em afrescos e arte ao se diluírem na atmosfera reduzidas a pó, quais rapés; transmutadas em coisas sem valor. Pediria socorro e urgência às autoridades e à sociedade da cidade que aniversaria dia 28 de novembro, que em seus 182 anos assiste a tantas adversidades calçadísticas, empregatícias, violência, insegurança, abandono do governo federal nas instituições mais significativas de saneamento básico populacional.
Suplicaria atenção para com os direitos primários do povo: Saúde, Habitação, Educação, Segurança.
Franca possui muita coisa boa. Magnífica até, só que há muito a desejar, muito a suplicar, contudo muito a oferecer.
Se meu fusca falasse diria que prefere postar-se em meu sítio, embaixo de uma mangueira, à beira de uma represa, ladeado de abelhas, aves em profusão, verde e sons puríssimos da natureza que o abençoa e o circunda de graciosidades fartas a cultuar-lhe a velhice, a amenizar-lhe o peso de seus anos e o desgaste de sua pintura azul-celeste. Fusca 1962, jóia rara de favores emotivos, reina absoluto em paraíso de proteção e de espera.
À espera da revitalização da capela do colégio, onde estudou sua dona pelos idos de 1954 a 1958 - nos cursos de admissão e ginasial, hoje ensino fundamental.
À espera de que a comunidade solidária participe das reuniões a partir do dia 23 de novembro de 2006, de ex-alunas e interessados em promover a recuperação deste manancial rico da história do colégio, da memória indelével de arte consignada, oriundas de trabalho e dedicação de nossos antecessores.
Se meu fusca falasse, agradeceria aos olhos e aos ouvidos daqueles que atendessem a seus apelos e realizassem seus sonhos, mesmo que parte deles. E que, de quebra, arrumassem as ruas, sem buracos, a fim de que pudesse trafegar com mais conforto, tranqüilidade, por respeito à sua idade, inteligência e fala...
Na sua terceira idade, meu fusca, cognominado Jararaca, saudaria a bela e esplendorosa Franca pelos seus 182 anos de valores, ilusões e esperanças.
MARIA DE LOURDES LIPORONI MARTINS é professora
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