Presidente da câmara solta o verbo


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“Agora que meu mandato está vencendo, as jogadas por baixo dos panos para escolher meu sucessor na presidência não param.”
“Agora que meu mandato está vencendo, as jogadas por baixo dos panos para escolher meu sucessor na presidência não param.”
<p>Excluído pelo prefeito Sidnei Rocha (PSDB) e colegas dos conchavos para a escolha de seu sucessor à presidência da Câmara Municipal de Franca, Marcelo Mambrini (PMN) resolveu soltar o verbo. Em seu gabinete, no final da tarde de sexta-feira, abriu o jogo. Revelou como são as negociatas que garantem a aprovação de projetos no Legislativo francano, acusou colegas de Câmara de traição e se declarou decepcionado com o modo peculiar com que a política é feita na cidade. </p> <p><br />A irritação do atual presidente da Câmara sobrou também para o prefeito Sidnei Rocha (PSDB), o qual Mambrini acusa de manipular os vereadores, de interferir na independência dos poderes e de não cumprir promessas feitas em troca de votos do próprio Mambrini em projetos enviados pelo Executivo. </p> <p><br />O estopim da insatisfação do presidente seria uma aliança acertada nos bastidores - e confirmada abertamente pelo líder do prefeito na Câmara Municipal, Jepy Pereira (PSDB), e pelo chefe de gabinete de Sidnei, José Paschoal Ribeiro. Sem consultar Mambrini, o prefeito já teria definido o nome de Joaquim Ribeiro (PSB) como seu candidato na disputa pela presidência da Câmara no ano que vem. O ex-sargento da Polícia Militar disse ainda que está escrevendo um livro para contar o que acontece “por debaixo dos panos” na política em Franca. </p> <p><strong>Comércio da Franca- O senhor está perto de encerrar seu mandato como presidente da Câmara. Para o senhor, foi um sonho realizado?<br />Marcelo Mambrini</strong> - Sim. Qualquer vereador quer ter no seu currículo que foi presidente da Câmara, fez isso, fez aquilo. Eu fui. Já está bom. Está excelente. Agora que meu mandato está vencendo, as jogadas por baixo dos panos para escolher meu sucessor não param. Todos os vereadores, com exceção dos dois do PT (Gilson Pelizaro e Silas Cuba), foram chamados ao Gabinete do Prefeito para falar sobre a eleição da mesa da Câmara do ano que vem, receberam a recomendação do Sidnei Rocha para votar no Joaquim. Menos quem? Menos quem? O Mambrini. Eu tinha que ter sido o primeiro... </p> <p><strong>Comércio - Como o senhor avalia essa reunião?<br />Mambrini</strong> - Historicamente, nas últimas eleições em que isso ocorreu, as coisas mudaram. Já houve situações aqui em que o acertado durante toda a negociação, na hora de votar, não foi cumprido. Aliás, isso é o mais comum. O Mambrini, por exemplo, nas negociações, não era presidente nem aqui nem na China. </p> <p><strong>Comércio - Mas o que o senhor pensa deste tipo de aliança?<br />Mambrini</strong> - Não imaginava que a coisa fosse dessa maneira. Eu imaginava um pouco de componentes políticos, de conchavos, de costuras, mas não imaginava que chegasse a esse ponto. Fico triste com algumas incoerências que vejo aqui. </p> <p><strong>Comércio - Que incoerências seriam estas?<br />Mambrini</strong> - É o caso da votação da doação da nova área do CDP (Centro de Detenção Provisória) na última terça (dia 21). O Joaquim (Ribeiro, do PSB) ficou escondido dentro de uma sala. Ele foi lá fazer a contagem mentalmente. Aí, antes de sair o resultado, é dado um sinal para ele como quem diz “O teu voto aqui vai ser necessário. Se não tiver o teu voto, não tem área”. Aí, ele vai lá na primeira secretaria, conta os votos, vê que vai faltar um e aponta a fileira do sim como quem diz “Bota um xis aí no sim”... Quer dizer que, se tivesse dado os dez votos, ele teria ficado escondido na salinha. E isso todos viram, não sou eu quem está falando não. Então eu acho que a pessoa tem de ter o mínimo de coerência possível. Ficou dois anos batendo. Na questão do CDP, bateu. Na questão do Dinfra (o prefeito apresentou um projeto para extinguir a empresa, que foi aprovado pela Câmara), bateu muito. Na questão da “Mário de Andrade” (Fundação já extinta pelo prefeito com autorização da Câmara), bateu muito também. Em muitas outras, bateu o quanto quis. E, agora, inexplicavelmente, tudo que o prefeito manda para cá, inclusive projeto para mexer na dotação orçamentária da Câmara, o camarada vota sim. É muita incoerência. É isso que me dói. Não me dói deixar a presidência, porque o que eu tinha de fazer eu já fiz. Eu não morro de amores para ser presidente. É claro que se eu tiver oportunidade, vou lutar até o fim, até porque penso que fiz (sic) um bom mandato. </p> <p><strong>Comércio - Por que o senhor quer continuar dirigindo a Câmara se está decepcionado?<br />Mambrini</strong> - Sempre alguém vai questionar porque eu sou novo, tenho muito que aprender, sou tido como polêmico para poder dirigir o Legislativo, mas eu trocaria a palavra polêmico por corajoso. Veja bem. Cortei as horas extras, fiz um concurso público, não construí o novo prédio da Câmara, o que fui pressionado a fazer; contratei dois assessores para melhorar o atendimento ao público... As coisas que eu fiz aqui e que foram chamadas de polêmicas, na verdade, foram corajosas. </p> <p><strong>Comércio - O acordo entre Joaquim Ribeiro e Sidnei Rocha ao qual se referiu passa por um descontentamento do prefeito com o senhor?<br />Mambrini</strong> - É simples. Quem me deixou conversando sozinho no Gabinete, foi eu ou foi ele? </p> <p><strong>Comércio - O prefeito deixou o senhor falando sozinho no Gabinete? Quando isso ocorreu?<br />Mambrini</strong> - Quando fui tratar com ele da apresentação do projeto do convênio de trânsito, porque depois eu ia solicitar o envio do projeto do pró-labore (gratificação a policiais que fiscalizam o trânsito) que ele mesmo prometeu em campanha. E depois prometeu pra mim também. “Inclusive, Mambrini, você vota com a gente aí, que a gente vai atender seus pedidos”, dizia. Eu fui alertar que o convênio de trânsito estava vencendo, 40, 20, sete dias antes. Eu disse a ele para mandar o projeto do convênio, depois de dois ou três meses, o do pró-labore, mas ele não me ouviu. Eu não estou preocupado se estes dois projetos serão aprovados ou não. Eu quero que venham para a Câmara, que sejam discutidos e votados. Isso é o mínimo que posso fazer como vereador e policial militar em prol do grupo e da minha bandeira de trabalho. </p> <p><strong>Comércio - Na sua opinião, por que o prefeito está descontente com o senhor?<br />Mambrini</strong> - Não sei, mas pode ser por causa do meu posicionamento na tribuna no caso dos cones (em que Sidnei Rocha é acusado de xingar um policial militar de “policial de merda” depois de se irritar com a colocação de cones em frente à Base Comunitária na Praça Barão). Isso aí eu falo na cara dele que ele errou. E não adianta ele querer falar que o cone estava no meio da rua, porque é mentira. O cone estava no meio-fio, isolando um espaço destinado ao estacionamento de dois ou três carros. Eu fiz um posicionamento de crítica na tribuna e isso é o mínimo que eu podia fazer. </p> <p><strong>Comércio - Não há outro motivo... <br />Mambrini</strong> - Há a questão das cirurgias eletivas. Ele ficou bravo comigo porque apresentei a emenda de R$ 1 milhão para as eletivas e ele gostaria de ter aprovado um projeto para mexer na dotação da Câmara. O pior, sem me consultar! Manda o projeto para o Legislativo, pegando R$ 1,7 milhão que são da Câmara... Espera aí, gente, isso é o duodécimo da Câmara. Como é que ficam os últimos três meses? Mas que presidente de Câmara que eu sou? Cadê a autonomia da Câmara que tanto é pregada? Não, vai me desculpar... Eu concordo com um milhão de coisas, mas há algumas com que não posso concordar.<br /></p> <p><strong>Comércio - Mesmo com a promessa do Sidnei Rocha de que não interferiria nas eleições da presidência, houve essa reunião com os vereadores?<br />Mambrini</strong> - Tive a notícia da boca do Donizete da Farmácia (PMN), na quarta-feira de manhã. “É, Mambrini, o Sidnei me chamou lá e disse que quer que vote no Joaquim”. Eu então perguntei: “A gente não tinha compromisso com o Rui (Engrácia -PSDB)?”. Aí, o Donizete respondeu que tinha falado isso para o prefeito. “Olha, Sidnei, eu tenho compromisso com o Rui”. Na hora, o Sidnei teria ligado para o Rui e ele desistiu. </p> <p><strong>Comércio - E como o senhor avalia o relacionamento do Rui Engrácia com o prefeito?<br />Mambrini -</strong> O Sidnei desprezou, des-pre-zou, essa é a palavra, a figura do Rui como vereador de sua bancada, de seu partido no caso da Sabesp. Acionou a patrola, a esteira, o trator, e passou por cima do assunto Sabesp (Sidnei retomou os serviços de água e esgoto da cidade por meio de decreto). Nesse ponto, eu julgo que ele tinha de agir com firmeza, mas, espera aí, tinha um vereador aqui, do PSDB, do mesmo partido, gerente da Sabesp, deveria ter chamado esse cara, avisado: “Olha Rui, eu vou fazer assim, avisa o pessoal lá, negocia, resolve a questão”. Não. O próprio Rui foi pego de surpresa quando abriu o jornal no dia seguinte. “Sidnei vai tomar conta da Sabesp”. Aí, o cara (Rui Engrácia), depois de um telefonema do prefeito, abre mão de um acordo que tinha sido feito na bancada... </p> <p><strong>Comércio - O senhor se sentiu traído...<br />Mambrini</strong> - Até hoje o Mambrini foi aquele vereador que estava ali, firme. Levei paulada. Fui chamado de traidor. PMN, traidores. Mambrini, Donizete, traidores. Votaram no Luiz Carlos (Fernandes - PDT) depois de prometer o voto para o Joaquim (nas eleições da mesa da Câmara em 2005). Luiz Carlos levou 20 anos para ser presidente. Pressão atrás de pressão. Na época da primeira votação, da doação do terreno do CDP,  me fizeram até telefonema perguntando quanto custava o meu voto. “Quanto custa o seu voto, vereador?...” </p> <p><strong>Comércio - Quem fez essa oferta para o senhor?<br />Mambrini</strong> - Não tenho a mínima idéia. Era uma pessoa que eu não conhecia e não dei muita confiança porque a pressão estava muito grande. “Quanto custa o seu voto, vereador?” Foram dez votos aqui, mas pegando na trave. O Marcelo Valim (PSDB) e o Nirley de Souza (PSC) já tinham votado contra na primeira votação e estavam para mudar para o sim. Contando com o meu, essa mudança, dava os dez votos. Aí, eles devem ter feito esse telefonema para outros vereadores. Talvez um ou dois, entre eles, eu. </p> <p><strong>Comércio - O senhor comentou com algum colega do Legislativo essa história ou confirmou se eles foram procurados?<br />Mambrini</strong> - Não, não, não. Nunca tomei conhecimento. Meu telefone tocou pouco antes da sessão e me perguntaram. Essas pessoas queriam que eu votasse não, para evitar a aprovação. Respondi que meu voto não tinha preço. Então, as únicas coisas que me deixam triste são duas: por que o presidente não foi chamado para conversar? Por que esconder as coisas? Vamos jogar limpo. Por que essa incoerência absurda, essa falsidade, de quem pregou até hoje ser uma oposição e, agora, vota até em terreno para CDP? Que maneira de fazer política é essa? Quando eu estou quase adotando o conceito de vereador independente, pregado tanto pelo Joaquim desde sua posse, desde o primeiro minuto, me cai essa ficha. </p> <p><strong>Comércio - Até onde vão as negociatas para os acertos da Prefeitura com a Câmara de Franca?<br />Mambrini</strong> - Eu nunca tomei conhecimento dos bastidores da Prefeitura. Até porque eu não freqüento muito o prédio. O Sidnei Rocha é uma pessoa muito difícil de dialogar. Eu queria ter tido mais acesso a questões do Poder Executivo, mas não deu. Então não sei. Comércio - É difícil ser aliado de Sidnei Rocha?<br />Mambrini - É difícil porque a equipe dele não dialoga. Eles chegam a preterir um presidente e a Câmara que sempre ajudaram só para aprovar projetos que consideram importantes. Simplesmente se esquecem de conversar. </p> <p><strong>Comércio - O senhor está magoado?<br />Mambrini</strong> - Não digo mágoa. Ficam a tristeza e a decepção. Você quer ajudar e encontra barreiras e episódios lamentáveis como o dos cones.</p> <p><strong> Comércio - Os bastidores assustam?<br />Mambrini</strong> - O que eu estou fazendo aqui é um desabafo, mesmo. Inclusive estou preparando um livro sobre essas coisas que acontecem aqui nos bastidores. O nome do livro é “Nos bastidores de um poder”. Vou contar essas histórias todas, naturalmente tentando resguardar os nomes. Mas vou contar como as coisas acontecem.</p> <p><strong>Comércio - E como o senhor fica na disputa por uma reeleição como presidente?<br />Mambrini -</strong> Eu estou firme. Sou candidato até o fim, até a abertura dos trabalhos da sessão. Inclusive, olha, eu vou falar a verdade: o Sidnei Rocha não tem essa unanimidade toda não. Se alguém fizer alguma coisa por orientação dele, talvez alguns desses farão contra a sua vontade. Você já viu o cara engolir gilete? É igual tomar comprimido sem água. Ele não deve pensar que está tudo certo não, porque não está. </p> <p><strong>Comércio - Então, na opinião do senhor, existiriam vereadores insatisfeitos com o prefeito. Quem são eles?<br />Mambrini</strong> - Eu não posso revelar porque seria trair a confiança deles, mas há, pelo menos, dois que eu sei que não estão contentes com algumas atitudes do prefeito Sidnei Rocha. Nesta legislatura, houve duas situações semelhantes a essa que depois frutificaram diferente. O cara esperava uma framboesa e, no fim, veio um jatobá, ou vice-versa. É complicado uma pessoa do nível político e profissional do Sidnei Rocha tentar controlar a presidência de uma Câmara Municipal. E outra coisa. Ele não cumpriu com seus compromissos. É uma pena que um vereador pobre como eu, que não tenha o microfone na mão, não possa falar mais.</p>

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