Abandonado na garagem


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Aposentado de 73 anos está com câncer e não consegue andar. Está abandonado pela família e tem que tomar banho de bacia e usar um balde como banheiro
Aposentado de 73 anos está com câncer e não consegue andar. Está abandonado pela família e tem que tomar banho de bacia e usar um balde como banheiro
Em um cômodo de paredes improvisadas com lonas sem qualquer condição de higiene, com apenas uma cama de solteiro, uma pequena bacia de alumínio que faz as vezes de pia e chuveiro e com um balde que funciona como privada. É assim que vive o pedreiro aposentado Luís Carlos Bernardes da Silva, 73 anos. Há pelo menos 15 dias, foi alojado em uma garagem na Rua das Pracinhas, no Jardim Lima. Com câncer na garganta (o tratamento está suspenso) e sem conseguir andar direito desde que sofreu uma queda na rua, Luís Carlos está separado da mulher há mais de 20 anos, já perdeu contato com os dois filhos que são casados e a irmã que cuidava dele morreu de câncer há quatro meses. Desde a morte dela, Luís Carlos perambulava pelas ruas, onde dormia. Há duas semanas, porém, escorregou num dia de chuva e machucou as pernas. “Elas estão inchadas. Não consigo mais andar. Antes, eu ia para tudo quanto é lado da cidade. Agora não dá mais.” Socorrido, foi levado para a casa do irmão, o pedreiro Marcos Antônio Bernardes da Silva, 58. No imóvel, foi abrigado na garagem. O irmão mora na edícula com o filho, a nora e duas netas de 7 anos e de 8 meses; na casa da frente, vivem a ex-mulher de Marcos Antônio, que é deficiente física e se locomove numa cadeira de rodas, e seus outros dois filhos. Ambos dizem não ter como acomodar o aposentado. Indignados com a situação em que o tio se encontra, os sobrinhos procuraram vagas nas entidades de idosos em Franca e tentaram levar Luís para a Casa São Camilo de Léllis, mas alegam que o pai, Marcos Antônio, resiste. “Não sei porque meu pai reluta em deixá-lo na entidade. Não é justo uma pessoa no fim da vida estar assim. Aqui ele está sofrendo e nos prejudicando. As janelas da casa têm de ficar fechadas porque o cheiro é forte, além do cigarro”, disse o sobrinho e barman Marcelo Bernardes Filho, que mora na casa da frente. Luís também prefere deixar a garagem. “Acho que lá vai ser melhor, vão cuidar de mim, vou ter com quem conversar. Aqui fico dando trabalho para eles”, disse. A Casa São Camilo de Léllis poderia atendê-lo, mas, para isso, precisa da autorização de Marcos Antônio, que é o atual responsável pelo aposentado. Luís Carlos recebe uma aposentadoria no valor de R$ 350 do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e o dinheiro passaria a ser dividido entre a instituição e a família. Atualmente, quem recebe a aposentadoria é Marcos Antônio. JUSTIFICATIVA? Procurado pela reportagem do Comércio no final da tarde de ontem, Marcos Antônio Silva disse que só não autorizou a internação de seu irmão porque a São Camilo não presta atendimento integral. “Nesta entidade, os internos passam o fim de semana com os familiares que precisam ir buscá-los. Eu não tenho como fazer isso, por isso, não autorizei.” Questionado sobre a instalação do irmão na garagem, ele se defende. “As condições dele não são muito diferente das nossas. Nos fundos, moramos cinco pessoas em três cômodos. É difícil, mas e o que mais posso fazer?” Marcos Antônio disse que só procurará outro abrigo para Luís na próxima semana, quando tiver terminado a reforma de uma casa em que está trabalhando e ficar com mais tempo. Sobre a aposentadoria de R$ 350 de Luís, Marcos disse que o dinheiro foi gasto para comprar a cama de solteiro, cobertores e a comida que o irmão consome e usa. “Mas se ele mudar de endereço, destinarei todo o benefício para ajudar nas despesas do asilo”.

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