Adesão ou coalizão?


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A idéia de que o PMDB vai simplesmente aderir ao governo para usufruir mais cargos na Esplanada dos Ministérios é justificável, mas pode ser falsa. A entrada em bloco do partido no novo ministério pode mudar a natureza do governo Lula, que ganhará características mais centristas do que de esquerda. E também deslocar o eixo de sua base de sustentação no Congresso. Tanto no Senado, como já ocorre, como na Câmara, a força decisiva para a formação da maioria passaria a ser o PMDB e não o PT. Tal mudança de eixo político, com a formação do “governo de coalizão”, pode levar à acomodação em relação às reformas. O programa da coalizão seria menos ambicioso que o discurso de campanha, ainda que Lula preserve a retórica mudancista. Em contrapartida, daria ao governo uma base de sustentação parlamentar mais robusta e asseguraria condições ideais para a continuidade da atual política econômica e dos projetos administrativos que já estão em curso. Ou seja, estaria assegurada uma sólida governabilidade. Com o PMDB em bloco no ministério e na base de sustentação, Lula poderia realizar um governo com desempenho semelhante ao anterior, porém com menos turbulências políticas. Para quem deixou de votar em Lula no primeiro turno e votou no segundo, por acreditar nas promessas de mudanças, pode ser uma frustração. Entretanto, um olhar mais pragmático verá que é uma boa solução. Sem aloprados e trapalhadas no governo, Lula faria um segundo mandato melhor do que o atual, do ponto de vista dos seus 58 milhões de eleitores. Desprezar essa possibilidade é mais ou menos como deixar a banheira para pular na piscina sem saber se tem água dentro. Está na moda falar de capacidade de governança. É o processo de tomada de decisão e de implementação ou não implementação dessas decisões. Instituições públicas conduzem os negócios públicos, administram recursos públicos e buscam garantir a realização dos direitos dos cidadãos. A boa governança busca realizar estes objetivos com eficiência e respeito à lei, sem abusos, nem corrupção. Os maiores doadores de ajuda econômica, como o FMI e o Banco Mundial, estão cada vez mais condicionando sua ajuda e seus empréstimos às condições de boa governança. Os investidores privados também. Na montagem do “governo de coalizão”, a incógnita maior não é a garantia de apoio parlamentar, é a capacidade político-administrativa do governo compartilhada entre o PT e o PMDB, além de outros partidos coadjuvantes. Tal governo dificilmente terá caráter reformador, mais isso não significa que não possa ter um bom desempenho. Há quadros com competência técnica e capacidade política nos dois partidos para serem bons ministros. A agenda das reformas – política, tributária, trabalhista e previdenciária – não é viável no confronto entre o governo Lula e a oposição, representada pelo bloco PSDB, PFL e, agora, MD (fusão do PPS com o PMN e o PHS). Teria um custo eleitoral muito alto. A agenda mais viável será aquela que receber o apoio do governo e da oposição. Aparentemente, o presidente Lula busca a construção dessa agenda através do entendimento com os governadores e o diálogo com oposicionistas no Congresso. Seu sucesso, porém, vai depender da composição do novo governo e das propostas que de fato enviar ao Congresso. Por enquanto, tudo ainda é jogo de cena. LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista

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