O final, todo mundo sabe: casamentos, mulheres grávidas, a redenção do bandido, sua prisão ou morte, discursos inflamados e muito, mas muito otimismo. Mesmo assim, elas não largam do televisor até que a última cena se encerre e na tela apareça a frase “Fim”, enfim. Mas como explicar tanta devoção aos contos de folhetins, as conhecidas novelas que fazem as cabeças de mulheres donas de casa e jovens de todas as classes sociais? A resposta pode estar nas tramas, quase sempre espelhadas no cotidiano das pessoas comuns, com uma pitada (das grandes) de fantasia e sonho inventados pelos autores. É a proximidade das histórias do dia-a-dia com a vida real que arrebanha capítulo após capítulo cada vez mais novos telespectadores.
Depois de um dia cheio, um banho quente e relaxante ao final do dia é a “deixa” para o que vem depois. Dedos a postos no controle-remoto, a estudante de enfermagem Silvania Rodrigues dos Santos, 25, está pronta para mais um capítulo de O Profeta.
O folhetim trata da história de um jovem que vê as coisas acontecerem antes que elas aconteçam. Uma trama que já prende o espectador por si só, mas, claro, é entremeada por um caso de amor desencontrado, cercado de personagens que tentam atrapalhar o romance do protagonista que, também é óbvio, é um rosto bonito. Mas não é só o que prende Silvania à história. “São histórias parecidas com as nossas. Também temos amores desencontrados, gente que atrapalha nossas vidas. É a proximidade de nossas vidas que me atrai às novelas”, diz a estudante.
Hoje, Silvania não acompanha mais os capítulos das novelas como fazia há uns cinco, dez anos. Mas ainda se lembra de capítulos e personagens que ficaram na história, como a Maria Joaquina, a garota má que maltratava o pequeno Cirilo na novela infantil mexicana Carrossel, transmitida pelo SBT em 1991. “Adorava a novela. Foi uma fase de minha vida que não esqueço”, diz ela.
Silvania se recorda ainda que chorou no final de Felicidade (1991-92), se inspirou nos modelitos das roupas e acessórios orientais de Jade, de O Clone (2002) e se sentiu vingada com a reviravolta da personagem Vitória (Cláudia Abreu) diante da vilã Bia Falcão (Fernanda Montenegro) em Belíssima.
HISTÓRIAS DE VIDA
A estudante Melina Orlando Cardoso, 19, também é fã de novelas. Só não assiste a pelo menos às três globais porque entra na faculdade às 19 horas. A redenção é quando tem uma aula vaga ou aos feriados, quando é possível pôr em dia um capítulo perdido.
A novela que ela mais gostou foi Mulheres Apaixonadas, porque colocou em debate temas polêmicos como câncer de mama, violência doméstica, homossexualidade, entre outros assuntos. “Acho que a novela tem uma função social importante. Elas são um forte veículo de informações, pois atingem um grande público. Além disso, têm o lado de entretenimento, lazer”, disse Melina.
No seu caso, as telenovelas já foram uma espécie de “vício”. “Já cheguei a deixar de fazer coisas, ir a compromissos para não perder nenhum capítulo. Agora, tenho outras prioridades, mas não deixei, pelo menos, de acompanhá-las (as novelas), nem que seja pelos resumos publicados pelos jornais”, diz Melina. Sua colega Vanusa Vieira dos Santos, 20, outra aficionada pelos folhetins, também acredita que as tramas estão cada vez mais próximas da realidade dos brasileiros. Ao final de cada capítulo de Páginas da Vida (Rede Globo), ela consegue acompanhar algumas vezes as participações de populares que dão seus depoimentos sobre os assuntos abordados. “Aquilo chama muito minha atenção, pois são depoimentos de pessoas comuns que acabam se identificando sempre com alguém que nós conhecemos”, diz Vanusa.
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