A dona de casa Cacilda Galante Ferreira, 36, deu à luz ontem a um bebê anencefálico (sem cérebro) na cidade de Patrocínio Paulista. Apesar de ter conhecimento do problema e de sua gravidade há mais de quatro meses, a mulher e seu marido, o agricultor Dionísio Justino Ferreira, 46, decidiram levar a gravidez até o fim. Apesar da anencefalia ser rara, foi o segundo caso na região nos últimos 60 dias. O primeiro ocorreu em setembro, em Franca, mas os pais decidiram interromper a gravidez (leia mais nesta página).
Marcela de Jesus Galante Ferreira nasceu pouco depois das 13 horas, na Santa Casa da cidade vizinha, pesando 2,5 quilos e com 47 centímetros. Logo após a cesariana já estava de olhos abertos. Não chorou. Nem foi colocada em aparelhos de ventilação mecânica. Assim que foram realizados os procedimentos de limpeza, ela foi batizada. Sua expectativa de vida é incerta.
Pode ser de horas ou, no máximo, dias. Mesmo assim, o pai, emocionado, chorou após conhecê-la. “A gente não poderia ter tirado dela o direito de, de repente, ser abençoada com um milagre. Só Deus é o dono da vida”, disse.
Dionísio afirmou que o casal tem outras duas filhas, de 18 e 16 anos, e que a notícia da nova gravidez foi uma grata novidade. “Desde o princípio, nossa alegria foi muito grande e o baque foi feio ao descobrirmos o problema do bebê. Mas reunimos forças para enfrentar a situação”.
O casal não quer mais filhos. “É apenas uma opção. A Cacilda já fez três cesarianas, com esta, e acho que está de bom tamanho”.
O agricultor não quis opinar sobre o casal francano que optou pela interrupção da gravidez. “Não vou julgar o que decidiram.
Quem sou eu para isso? Nós decidimos ir até o fim e eles não. Cada um tem sua razão”.
O QUE CAUSA?
A anencefalia é uma incógnita para a medicina. Sabe-se pouco sobre os motivos de sua ocorrência e eventuais formas de preveni-la. É fato que fetos do sexo feminino são os mais atingidos, em uma proporção de quatro para um em relação aos do sexo masculino.
Algumas condutas antes da gravidez são associadas à anencefalia, segundo sites de pesquisas médicas, como a ingestão por longo período de pílulas anticoncepcionais ou de anticonvulsivantes que contenham ácido valpróico. Por outro lado, o consumo de alimentos com alto teor de ácido fólico, como brócolis, espinafre, gema de ovo, fígado, feijão e peixes, ajudaria a prevenir a doença.
Para a ginecologista e obstetra Eliane Pereira Ribeiro Dib, essas versões estão erradas. “É uma doença muito rara, que surge ao acaso, sem razão definida. Tanto que os pais costumam ter outros filhos, antes e depois da ocorrência, sem qualquer problema de saúde”.
O obstetra e prefeito de Patrocínio Paulista, José Mauro Barcellos, que fez o parto de Marcela, informou que este é o segundo caso da doença na cidade em 25 anos. Em média, nascem 25 crianças por mês no município. “A incidência (de anencefalia) é mínima. Mas, quando acontece, é chocante para familiares e até para nós, médicos”, concluiu.
Até o fechamento desta edição, o bebê estava vivo.
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