`Fui subaproveitado´


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“Nunca deixei de atender a uma convocação sequer ao gabinete de um prefeito, mas também não vou em festa sem ser convidado.”
“Nunca deixei de atender a uma convocação sequer ao gabinete de um prefeito, mas também não vou em festa sem ser convidado.”
<p>Roberto Engler (PSDB) alcançou, no dia 3 de outubro, seu quinto mandato como deputado estadual. Ao final dele, completará 20 anos seguidos na Assembléia Legislativa. Faz questão de frisar que não tem qualquer intenção de se aposentar e que se sente disposto como um político “em início de carreira”.</p> <p><br />Em entrevista ao Comércio da Franca, na semana passada, mostrou-se solícito, animado e pregou um discurso de “união de forças pela cidade e região”. </p> <p>Afirmou que uma de suas primeiras atitudes do novo mandato será estreitar relações com o deputado federal eleito por Franca, Marco Aurélio Ubiali (PSB), e fazer com ele um trabalho conjunto pela cidade. Disse também que torce para que o outro deputado estadual eleito por Franca,  Gilson de Souza (PFL), que ainda não tem vaga confirmada na Assembléia, consiga confirmar sua cadeira.</p> <p><br />Embora negue, Engler demonstrou ter uma pontinha de ressentimento em relação ao prefeito Sidnei Rocha (PSDB), seu colega de partido, com quem viveu, nas últimas décadas uma relação de altos e baixos. “Acho que fui subaproveitado. Nunca deixei de atender a uma convocação sequer ao gabinete de um prefeito, mas também não vou em festa sem ser convidado”, disse, em referência ao distanciamento entre ambos. </p> <p><strong>Comércio da Franca - O senhor, ao contrário da última eleição, em 2002, quando ficou na suplência, elegeu-se com facilidade desta vez. A que se deve isso?<br />Roberto Engler</strong> - Acho que essa eleição foi tão difícil quanto as outras. Mas como a nova legislação proibiu brindes, camisetas, bonés, showmícios, nós, candidatos, tivemos de encarar os nossos eleitores de frente. E traçamos uma estratégia para encarar isso. Os nossos panfletos em Igarapava eram diferentes dos de Batatais, por exemplo. Em cada um a gente contava o que era feito naquela cidade. Com isso, tivemos uma votação um pouquinho mais expressiva e não ficamos naquela angústia de quatro anos atrás. </p> <p><strong>Comércio - O senhor se diz amigo do governador eleito José Serra. O que essa proximidade trará de recursos para a cidade?<br />Engler</strong> - Ele foi o maior estímulo que eu tive para me candidatar novamente, pois o deputado estadual é um instrumento de conexão entre as comunidades que ele representa e as instâncias do governo. José Serra, além do preparo e competência, é um grande companheiro, grande amigo pessoal meu. Alguém que na abertura da Fenafic, aqui em Franca, na frente de jornalistas, empresários e prefeitos, agradeceu a votação expressiva que teve como candidato à Presidência da República, em 2002. Logo depois, na Praça Barão, disse-me: “Engler, você é uma pessoa extremamente leal e eu não esqueço das pessoas leais”. Isso me dá a garantia de uma eficiência maior como instrumento a serviço de Franca e região neste próximo mandato.</p> <p><strong>Comércio - Qual será seu primeiro pedido a Serra?<br />Engler -</strong> Capitanear toda essa movimentação dos calçadistas da nossa cidade, da nossa região, de Jaú, de Birigüi, junto ao governo federal, porque é lá que se resolvem as questões mais capitais. Ele vai debater muito com o presidente. A questão cambial, a busca da desoneração do setor em termos tributários, passando pelo PIS e pelo Cofins. Temos de buscar a redução dessa carga tributária de Brasília, porque aqui em São Paulo nós já tivemos a redução da alíquota e ICMS do calçado. Agora, em Brasília, a coisa está pegando fogo. Lá é que a carga está monstruosa, fazendo com que a maioria das nossas empresas passe para a informalidade. O que o governador está esperando? Canalizar todo esse grito, toda essa reivindicação junto ao governo federal e isso ele vai fazer, com certeza. </p> <p><strong>Comércio - Com o presidente Lula reeleito, o canal com o governo federal não se estreita para vocês, tucanos?<br />Engler</strong> - A questão não é bem a diferença de coloração partidária, mas a diferença é quem está sentado na cadeira de presidente. Mário Covas e Geraldo Alckmin sentados na cadeira de governador do Estado sempre receberam quaisquer prefeitos de quaisquer conotações partidárias. Não houve nenhuma discriminação. Não posso dizer o mesmo de Lula. Ele discriminou permanentemente São Paulo. Recursos que eram devidos ao nosso Estado foram desviados para outras atividades. Quer dizer, ele não fez graça para o Estado de São Paulo por uma questão político-eleitoral. Não vejo com bons olhos a reeleição de Lula para Franca e para o Estado de São Paulo. Mas vamos lutar para que, desta vez, as portas de Brasília se abram para todos os Estados sem discriminação. </p> <p><strong>Comércio - Recentemente, o ‘Comércio da Franca’ trouxe uma matéria sobre o declínio da profissão de sapateiro, que nos anos 90 chegou a ter um de seus ápices e hoje atravessa uma situação deplorável. Como o senhor analisa esta situação?<br />Engler</strong> - A guerra fiscal é um componente disso, com certeza. Depende de uma vontade política do governo federal, de uma reforma tributária. É necessária para que a guerra fiscal entre os Estados possa acabar. Aliás, esta é uma das reformas que não foram feitas. Certa vez, fomos a Brasília solicitar ao então presidente Fernando Henrique Cardoso que aumentasse as barreiras da importação ao calçado asiático. O calçado asiático era predador e andava acabando com as nossas indústrias. Fomos atendidos. O presidente FHC acabou criando formas de impedir que o calçado asiático entrasse com tanta força. Qual foi a primeira atitude do Lula nessas viagens que ele fez à China? Ele zerou as barreiras. O que esperar de um presidente que fala que vai criar tantos milhões de empregos em quatro anos e, no seu primeiro ato, elimina completamente as barreiras para o calçado asiático inundar nosso País? </p> <p><strong>Comércio - É evidente o distanciamento entre o senhor e seu colega de partido, o prefeito Sidnei Rocha. Isso não é ruim para a cidade?<br />Engler</strong> - Sempre digo o seguinte: não falto a um compromisso quando sou convocado, mas não vou em festa para a qual não fui convidado. Eu acho que faltou um diálogo maior, faltou um aproveitamento maior do deputado enquanto instrumento, faltaram mais convocações, “nós precisamos disso, precisamos daquilo, na secretaria tal, na segurança”. Acho que fui um pouco subaproveitado. Meu companheiro e amigo Sidnei Franco da Rocha, que tem feito um belo trabalho na Prefeitura de Franca, tem um deputado ao lado dele. E esse deputado quer ser acionado por ele e por seus secretários municipais para conseguir recursos e respostas às questões de Franca. </p> <p><strong>Comércio - Como o senhor vê a sucessão de Sidnei, em 2008? Em sua opinião, já é possível apontar nomes com boas chances de eleição?<br />Engler</strong> - Existem várias pessoas boas e é bom que seja assim. Mas é interessante: quando acontecem eleições para presidente, governadores e deputados, como essa, a agenda política já aponta para as eleições municipais. Acho que ainda é muito cedo para esse tipo de análise. </p> <p><strong>Comércio - O senhor poderá estar no páreo?<br />Engler</strong> - Não, não estarei. Confesso que minha característica política é essencialmente executiva, gosto de pegar e resolver logo as coisas, o que não é possível em minha atual condição de legislador. Gostaria de ter tido a oportunidade de ser prefeito, de ter mostrado para Franca do que seria capaz, mas tentei duas vezes, não consegui, e entendi o recado da população de Franca. Ela me quer como deputado e acho que como deputado tenho feito um bom trabalho. O homem público deve ficar não no lugar que ele gostaria de estar, mas no lugar em que ele é mais útil para suas comunidades. </p> <p><strong>Comércio - Como o senhor analisa a última eleição para deputado estadual e federal na cidade? Houve alguma injustiça?<br />Engler</strong> - A lacuna existente pela falta de deputado federal era a grande falha na nossa representatividade. Agora, o Ubiali, com uma votação surpreendente, discutirá  em Brasília todas as leis que regem o calçado e agropecuária da região. Quero fazer um trabalho muito próximo ao dele, para que a gente complemente um ao outro. A participação de Belão foi fantástica. Com sua simplicidade, conquista todo mundo. Marcelão também. É um bom vereador, um bom delegado e teve uma participação surpreendente. Já o Gilmar pagou os pecados do PT. Franca, com o resto do País, revoltou-se com os mensalões, a compra de dossiê e essa lama. O Gilmar acabou “pagando o pato”. Não foi uma votação em protesto à pessoa dele, mas uma votação em protesto ao partido dele, Partido dos Trabalhadores, que decepcionou o País. </p> <p><strong>Comércio - E quanto a Gilson de Souza, como o senhor analisa seu desempenho e a indefinição quanto à sua reeleição?<br />Engler</strong> - Essa foi minha grande dificuldade. Tive competidores extremamente fortes. O Gilson é muito bom de voto, é difícil competir com isso porque realmente é uma pessoa popular, carismática e teve essa votação fantástica na cidade de Franca. Sinceramente, diria até que tenho uma pontinha de inveja (risos). Quanto a essa indefinição, quero ser solidário com o Gilson. É exatamente a mesma situação porque passei há quatro anos. Sei que é muito difícil, é constrangedor, fica naquela torcida “vai-não-vai”. </p> <p><strong>Comércio - O senhor parte para o quinto mandato em 2007. Ao final dele, serão 20 anos ininterruptos na Assembléia Legislativa. O senhor chegou a pensar em aposentadoria, ou a atração pelo poder afasta esta possibilidade?<br />Engler</strong> - É difícil responder a essa questão, pois temos a nossa vida privada, nossa vida pessoal, nossa atividade pessoal, sou cafeicultor, sou professor, tenho outras atividades e até mesmo meus familiares fazem apelos para que eu dê tempo maior para estas atividades. Mas penso que o homem público não deve colocar seu projeto pessoal acima da questão pública. E nem deve estipular um tempo para a duração em que ele permanecerá ocupando o cargo por influência de seus interesses pessoais. O homem público tem de ficar no lugar que ocupa pelo tempo em que ele for útil para suas comunidades. Quando vi a conjuntura estadual mostrar José Serra como governador e a chance real de Geraldo Alckmin ser presidente, vi que não poderia ficar de fora desse sistema. Portanto, nesse instante, ao contrário de pensar em me aposentar, penso que preciso trabalhar muito mais.</p>

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