Caminhando para o encerramento de mais um ano litúrgico,.a primeira leitura e o evangelho da Missa deste domingo utilizam linguagem apocalíptica. Falam do sol que escurece, das estrelas que caem, dos anjos que convocam os eleitos dos quatro cantos do mundo, do filho do homem que vem sobre as nuvens do céu, do arcanjo Miguel, do tempo da grande aflição, da ressurreição dos mortos.
Os escritos apocalípticos possuem ensinamentos transmitidos através de imagens misteriosas e nunca devem ser interpretados ao pé da letra. Os livros apocalípticos surgiram em épocas históricas difíceis, quando um povo inteiro, abatido e oprimido, se perguntava: quando acabará o nosso sofrimento? Os autores apocalípticos anunciam uma mensagem de esperança: a maldade, a injustiça, a perseguição estão chegando ao fim e um reino de paz e de justiça está para surgir.
Chegou, sim, o fim do mundo, mas não se trata da destruição da terra, da humanidade, dos seres materiais; o que está para ceder o seu lugar ao Reino de Deus é o mundo dominado pelos malvados, pelos violentos, pelos injustos.
A primeira leitura é um trecho do livro de Daniel. Israel está sendo oprimido por Antíoco IV, um rei perverso e ímpio que quer acabar com a religião e persegue e condena à morte. Muitos judeus, apavorados, abandonam a fé. A leitura nos ensina que nenhum sacrifício será em vão. Nenhuma lágrima, nenhuma dor, nenhum sofrimento se perderá. A nossa fidelidade acelera o alvorecer do mundo novo e nós também participaremos da felicidade do Reino de Deus, porque nem tudo acaba com esta existência.
O trecho do evangelho de São Marcos faz uso de linguagem surpreendente para nós. Naquela época as comunidades cristãs estavam agitadas e assustadas por causa de guerras, de calamidades e de crises que abalavam o mundo inteiro. Alguns fanáticos aproveitando disso, lançam idéias que apavoram ainda mais. A palavra de Jesus é muito esclarecedora: não devemos dar ouvidos àqueles que anunciam catástrofes e o iminente fim do mundo.
É preciso difundir o otimismo ao redor de nós. O cristão está sempre consciente dos problemas ao seu redor, mas não os interpreta como sinais de morte. Num mundo marcado por tantas dores e lágrimas, as nossas comunidades devem ser sinais de esperança e fontes de amor, de alegria e de paz. A palavra de Jesus é portadora de felicidade e de salvação para todos.
Jesus convida todas as pessoas que sofrem porque amam a verdade, a paz, a justiça a liberdade a não desanimar. Mesmo nas horas mais tenebrosas devemos vislumbrar os sinais do reino que se aproxima.
Nos nossos dias assistimos ao desabamento de tantas certezas, de tantas ideologias. Quando olhamos somente ruínas e desastres, não estamos observando os acontecimentos com o olhar de Deus. É preciso pensar que quanto mais rigoroso for o inverno, mais rica de frutos será a nova estação.
O cristão sempre enxerga nas cinzas um raio de reconstrução pois sempre resta alguma coisa boa.
PADRE JOSÉ GERALDO SEGANTIN é pároco da Catedral de Franca
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