Há quem discorde da famosa tese de que as cidades do interior não podem ser celeiros de artistas e de bons espetáculos.
Ulisses Lopes, 42, ator há 20 anos e coordenador do Curso Livre de Teatro da Unifran, é uma dessas pessoas. Para ele, que estudou com o renomado diretor Antunes Filho, a palavra que marca o teatro atual é a diversidade. E diversidade não se encontra somente nas capitais. “Hoje, com a globalização, a internet e a TV a cabo ficou muito mais fácil. Eu conheço pessoas em São Paulo que são mais caipiras do que quem mora no interior. Também conheço pessoas no interior que são mais ligadas em informação e têm uma base cultural melhor do que quem mora em São Paulo”, diz. “Isso de estar no interior não é mais desculpa para não fazer um bom trabalho”, completa.
Radicado na região há 15 anos (depois de 25 em São Paulo), Ulisses acredita ser perfeitamente possível fazer teatro de qualidade em uma cidade do interior. Mas, para isso, é preciso que se tenha uma boa formação cultural. Eis a chave de tudo. “A principal idéia que se tem de formação de teatro é uma formação exclusivamente teatral, de você assistir a muitos espetáculos e ler muitos textos de teatro. Na realidade, não é bem assim. A formação que é essencial para o ator é a cultural. Então, eu utilizo o espaço que tenho para dar essa formação. Interessar-se por filmes, música e artes plásticas é muito importante. Se você analisar os grandes diretores, vai ver que a formação deles não passa só pelo teatro. Antunes Filho, por exemplo, teve sua formação através do cinema. O Gerald Thomas, através das artes plásticas.”
Essa idéia de formação cultural e global Ulisses traz da época em que estudou com Antunes Filho no CPT (Centro de Pesquisa Teatral). “O Antunes não falava para irmos ver determinado espetáculo. Falava para assistirmos festival de cinema japonês, exposição do expressionismo alemão, bienais de arte, etc.”
O diretor e ator Antunes Filho teve sua formação no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Tem fama de ser autoritário, mas costuma dizer que é apenas exigente. Hoje comanda o CPT, espaço alojado no Sesc Consolação, em São Paulo. Um lugar no seu grupo, o Macunaíma, é disputado a tapa. Mais de 300 pessoas buscam as 30 vagas.
EM BUSCA DE CULTURA
No Curso Livre de Teatro da Unifran, Ulisses procura estimular seus alunos a buscar essa formação cultural. “Cheguei a sofrer críticas em Franca de pessoas que acham que eu faço as coisas copiando São Paulo. Mas não é isso. A verdade é que você não tem como fugir da sua escola. Eu trouxe essa bagagem de pesquisa da época do CPT e acho que combina perfeitamente com o teatro feito dentro da universidade.” Em seu trabalho, procura usar toda a estrutura da Unifran para promover esse lado de pesquisa. “Isso aqui acabou virando quase um centro de pesquisa. Tanto que eu tenho apoio de vários cursos, como Letras, Moda, Artes e Comunicação”. Essa postura não significa que o curso não explore as técnicas teatrais. “Utilizo a técnica do desequilíbrio, várias técnicas orientais. Mas tudo dentro dessa visão global, de cultura geral”, explica.
Para ele, o maior problema em Franca é que boa parte da população ainda não tem consciência do que pode ser feito na cidade. “Aqui ainda é muito forte a questão do teatro político, dos anos 60 e 70, chamado de teatro amador. Mas essa diferença entre amador e profissional não existe mais e nem se pode dizer que a diferença é o lado financeiro. Há quem não ganhe nada com isso e faça o trabalho com uma qualidade profissional. Tem muita gente que ganha, mas não tem uma qualidade. Então o profissionalismo não está no ganhar, está na qualidade do espetáculo”, diz.
Quando questionado se tem vontade de voltar para a capital, onde supostamente há mais recursos para o fazer teatral, Ulisses é enfático ao dizer que não e ainda cita o exemplo de Pina Bausch. “Ela é uma alemã que mora em uma cidade minúscula e todo espetáculo dela é apresentado em várias capitais do mundo, com ingressos disputados a tapa. Não é porque se está no interior que não se pode desenvolver bons trabalhos”, diz. “Só falta ‘cair a ficha’ da população da cidade”, completa.
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