Durante décadas, a Calçados Samello foi um dos maiores referenciais brasileiros em sapato, com 12 mil pares produzidos diariamente, 3,5 mil empregos diretos e clientes espalhados em mais de 40 países. A empresa tinha uma reputação intocável. Era o sonho de grande parte dos sapateiros ser funcionário do grupo. Mas tudo isso, agora, faz parte do passado.
A Samello passou, nos últimos dez anos, por um lento processo de declínio, que desaguou em um verdadeiro caos financeiro. Hoje, não tem dinheiro para pagar seus funcionários, que estão com os salários atrasados há mais de dois meses e de braços cruzados desde 16 de outubro. A dívida com os trabalhadores já ultrapassa R$ 1,2 milhão. A empresa demitiu 117 pessoas no último dia 31 e sinaliza que, na segunda-feira, poderá dispensar os 283 que restam.
Na linha de produção, o cenário é triste: sapatos semi-acabados espalhados pelas esteiras e muitas caixas vazias. Faltam vários tipos de matéria-prima, como solas, vaquetas, couros e palmilhas. E falta, também, crédito para comprar mais insumos, pois na lista de credores da Samello figuram dezenas de fornecedores.
Em 20 de outubro, o empresário Miguel Sábio de Mello Neto disse que a empresa não fecharia em sua gestão na presidência e anunciou a intenção de vender a Fazenda Sudamata para sanear as finanças da Samello. A propriedade, localizada no Mato Grosso, tem área de 12 mil alqueires (o equivalente a cinco vezes a área urbana de Franca), 10 mil cabeças de gado e um valor de mercado astronômico: R$ 60 milhões.
Até hoje, segundo Mello Netto, a área continua à venda, mas não apareceram compradores dispostos a pagar o preço pedido. Corretores consultados pela reportagem disseram que o tempo mínimo para conclusão de um negócio deste porte seria de seis meses. “Menos de dez pessoas ou empresas teriam condições, hoje, em todo o País, de comprar esta fazenda à vista”, disse um deles.
Outra tentativa de tranqüilizar funcionários e credores foi feita em 1º de novembro. A Samello se comprometeu a tentar vender uma área no Parque Castelo, medindo 19 mil metros quadrados e avaliada em R$ 3,3 milhões, para pagar as dívidas mais urgentes, como funcionários e fornecedores, e retomar a produção. Mais uma vez, não surgiram as propostas esperadas.
Pelo menos seis instituições e agentes financeiros, particulares e vinculados ao Governo Federal, também foram procurados pela Samello. Mello Neto disse que solicitou empréstimo, junto a eles, no valor de R$ 5 milhões. Mais uma vez, imóveis da empresa seriam disponibilizados como caução. Novo fracasso.
Na sexta-feira, o empresário admitiu que a Samello dificilmente voltará a ser a potência que foi. Disse que sua esperança, agora, é continuar a busca por dinheiro, no menor prazo possível, para pagar os empregados, retomar uma pequena produção e manter o que, segundo ele, sobrou de mais valioso dos tempos de glória: a marca. “Sei que os funcionários têm razão em estar chateados, revoltados, afinal não estão recebendo. Muitos não continuarão na empresa. Mas confio que um grupo ficará conosco.
Se ficarem pelo menos 50, 100 pessoas, já aposto em um recomeço da Samello. Claro, que sob uma nova realidade”, disse.
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