Ele foi preso, torturado e exilado em Israel após passar por Uruguai, Chile e Peru. Voltou clandestinamente ao Brasil em 1975 e ainda guardou por 30 anos o segredo que marcou sua vida. Só 38 anos depois de ter sido preso e exilado, reencontrou seus irmãos. Sua mulher e filhos só foram conhecê-lo verdadeiramente 27 anos depois, recentemente, em julho de 2005. Nascido em 9 de fevereiro de 1943 em Santos Dumont (MG), militante político em Juiz de Fora e Rio de Janeiro no período que antecedeu o golpe militar de 1964, seu codinome é seu nome ao contrário: Ramati.
Como cidadão brasileiro, ele é Itamar Alves dos Santos, hoje um recatado servidor da Câmara Municipal de Franca. Trabalha no Processamento de Dados do Legislativo desde 1985. Ramati tem 63 anos e pouquíssimas pessoas conhecem sua verdadeira história. O anonimato, mantido por vários anos, teve uma finalidade: proteger a família. Tal sacrifício o levou a se afastar da família por mais de 38 anos. Os pais morreram e foram sepultados sem saber que ele estava vivo.
Ramati decidiu se abrir depois que sua sobrinha, Roberta Lopes Alves, vendo o sofrimento do pai Roberto Alves, resolveu investigar e, após quatro anos, encontrou o tio em Franca. Em setembro, ele reviu os irmãos Odaléa, 58, e Roberto, 53. Outra irmã, Maria José, como os pais, Eurípides e Carolina, morreu durante o exílio do ex-militante.
Itamar começou sua militância política ainda garoto, em 1956, aos 13, integrando a Juventude Operária Católica. “Meu tio era comunista e eu entregava o jornalzinho do movimento. No final da rua, ficava com um exemplar para eu ler. Fui me politizando, tomando consciência socialista.” Foi filiado no PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), de Leonel Brizola, aos 18 anos, quando integrou os movimentos estudantis Vanguarda Nacionalista, Grupo dos 11 e Juventude Universitária Católica.
No Grupo dos 11, movimento paramilitar fundado por Leonel Brizola para ser resistência ao Golpe Militar, Itamar teve participação mais ativa quando trabalhava na Estrada de Ferro Central do Brasil, entre Rio de Janeiro e Juiz de Fora. “Foi um tempo em que estudantes, trabalhadores, artistas e intelectuais se empenhavam na democratização da educação e da cultura”.
Sua primeira prisão ocorreu em dezembro de 1967. “Na época, cursava o 2º ano de Arquitetura na PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro. Passei por todo tipo de tortura: pau-de-arara, choque elétrico, tortura psicológica.” Itamar diz que os militares da repressão queriam o que já tinham. “O Itamar estava preso e eles procuravam o Ramati.” Na época, as células da Vanguarda Nacionalista tinham alguns líderes exponenciais. “Eu era um deles, mas, por sorte, eles não imaginavam que o Itamar preso era o procurado Ramati. Acabaram me soltando”.
Em 1969, Itamar foi novamente preso e torturado. “Em janeiro de 1970, me soltaram achando que iria contatar Ramati, mas preparei minha fuga.” Fugiu para o Uruguai, onde se encontrou com Brizola. O velho caudilho aconselhou o grupo a se distanciar ainda mais. Chile, Peru e, finalmente, Israel foram as próximas paradas. “Fugi de navio e fui para Israel, onde fiquei de janeiro de 1970 a dezembro de 1975. Quando voltei, fui viver clandestinamente em Sabará (MG), onde permaneci até a anistia, em 1979.”
Itamar casou-se em junho daquele ano com Gerolisa de Almeida Santos, com quem tem os filhos Peter Abdo Nasser Almeida Santos e Geromara Weruska Chaff Almeida Santos. Para reconstruir sua vida, Ramati foi enviado, já como Itamar Alves dos Santos, para Franca. Aqui foi ajudado por Domenico Pugliesi, professor e militante após a anistia, do PT (Partido dos Trabalhadores). “Minha mulher, conviveu comigo sem saber nada do meu passado. Só contei tudo em julho de 2005. Reuni a família e mostrei a ela e aos meus filhos quem eu tinha sido.”
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