Eles passam quatro horas seguidas sentados em uma poltrona. Num dos braços, uma agulha e implante interno conduzem o sangue do corpo para dentro de uma máquina que funciona como rim artificial. A rotina se repete no mínimo três vezes por semana.
No fim do mês, é como se os pacientes com problemas renais passassem 2 dias inteiros (48 horas) nas sessões de hemodiálise.
Pelo menos 280 pessoas de Franca e região dependem do tratamento realizado na Santa Casa e Hospital Regional. Apesar das dificuldades vividas, há histórias de superação, como a de Sílvio Alves, 39. Ele vive esta rotina há dois anos e não a considera uma tortura e nem se abate com o tratamento. “Sei que se não fosse a hemodiálise eu já estaria morto. Curto a vida”, disse ele, que gosta de tocar sanfona para animar bailes. Sílvio morava na Bahia quando passou pelo médico e, com pressão alta, deveria suspender a ingestão de bebidas alcoólicas, sal na comida e tomar medicamento controlado. Ele não seguiu as recomendações, passou a ter problemas renais e precisou de hemodiálise. “Fiquei ruim de saúde. Antes de começar o tratamento nem sabia como era. Hoje não vivo sem, faço certinho.”
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Todas as segundas, quartas e sextas-feiras ele toma ônibus no Jardim Aeroporto por volta das 10h30 até a Santa Casa para as sessões de filtragem do sangue. Sílvio só retorna para casa às 16h30. Com a doença, ele tem algumas privações, como não poder ingerir muito líquido, nem transportar objetos pesados. As restrições, porém, não o impedem de trabalhar como sanfoneiro em festas. “Adoro tocar e a hemodiálise foi a salvação para poder continuar algo que faço há 25 anos”, disse ele, que acabou de gravar um CD de forró. Questionado se o tratamento é importante em sua vida, Sílvio é direto. “Ave Maria se é: me mantém vivo.”
O dia da dona de casa Ana Maria Lima, 35, também é corrido e começa de madrugada nos dias de hemodiálise. Ela acorda às 5h30 para tomar o ônibus. Na Santa Casa, as sessões começam às 6h30.
Ana passa quatro horas ininterruptas ligada ao aparelho. A paciente tem lupus, doença que atinge o sistema imunológico, segue esse cronograma há dez anos, mas nem por isso desanima. “Incomoda um pouco. Só que já me acostumei e agora vivo bem melhor.”
SEM TRATAR
Em que pesem as dificuldades e a dependência criada, os pacientes que fazem diálise são privilegiados. Segundo o médico Vaner Pedigone, coordenador do serviço da Santa Casa, dos 175 novos casos anuais em Franca e nas 22 cidades da DIR XIII, mais da metade dos doentes morre por não chegar a tempo de se tratar.
A porcentagem indica que mais de 87 pessoas perdem a vida todos os anos com problemas renais. “Infelizmente, no máximo 50% dos pacientes chegam em condições de fazer diálise. Isso tem a ver com a infra-estrutura do sistema de saúde e também com a causa da doença de base, que às vezes é mais grave que o próprio problema renal e mata antes da pessoa receber tratamento,” disse. Com o rim artificial, a sobrevida é boa. “A taxa de mortalidade do nosso serviço é de apenas 5% ao ano”, disse o médico.
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