Três rompantes de autoritarismo, graves e preocupantes, marcaram a semana pós-eleição. O primeiro foi protagonizado por militantes petistas que se reuniram para receber o presidente Lula no Palácio da Alvorada e na base aérea de Brasília. Eufóricos, mas nada democráticos, hostilizaram a imprensa por suposta cobertura tendenciosa durante a campanha eleitoral.
Segundo informações, parte dos militantes era gente com cargo comissionado no governo, alguns usavam até crachá funcional. Os petistas e servidores mais exaltados diziam ter saudade do regime militar. ‘Prefiro a ditadura, vamos fechar todos os jornais’, disse um militante. ‘Se perguntarem sobre dossiê, vão levar um dossiê na cara’. Outro militante do partido avisou: ‘Nada de pergunta sobre mensalão.’
Depois, durante entrevista coletiva do presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, os jornalistas voltaram a ser hostilizados. Garcia ensaiou uma crítica pífia e puramente formal ao comportamento dos militantes. Mas, ao mesmo tempo, aproveitou a oportunidade para concitar os jornalistas a fazer uma ‘auto-reflexão’ sobre ‘o papel que tiveram nesta campanha eleitoral’, pretendendo, em última instância, que os profissionais e os veículos de comunicação se retratassem e pedissem desculpas pelas informações que transmitiram sobre o governo e seus ‘erros’. Para Garcia, por incrível que pareça, a imprensa deve passar a considerar o mensalão como pura invenção, uma obra de ficção. Jogue-se ao mar as palavras do procurador-geral da República, homem sério e nomeado pelo presidente Lula.
Como se sabe, o procurador-geral fez constar em seu relatório, expressamente, que uma sofisticada quadrilha, integrada por membros da cúpula do governo e do PT, agia em plano federal com o objetivo de ‘garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores mediante a compra de suporte político de outros partidos’. Invenção da imprensa? Ora, o brasileiro não é idiota.
Em Curitiba, a primeira entrevista coletiva de Roberto Requião como governador reeleito do Paraná foi marcada por ataques à imprensa do Estado e do País. Requião afirmou que quase foi derrotado pelo candidato Osmar Dias por culpa dos meios de comunicação. ‘Houve um bombardeio contra a imagem pessoal do governador, com a colaboração da Rede Paranaense de Comunicação - RPC (jornal Gazeta do Povo e a retransmissora da Globo, dos jornalões, da CBN’, disse. O governador Requião gostaria de contar com uma mídia simpática e oficialista. Aliado de Lula, também é incapaz de entender o necessário papel fiscalizador da mídia.
O terceiro surto foi ainda mais chocante. Refiro-me à vexatória tentativa de intimidar três jornalistas da revista Veja, no momento em que prestavam depoimento à Polícia Federal (PF). A Polícia Federal ‘republicana’, do ministro Márcio Thomaz Bastos, que nada tem a ver com a verdadeira PF, integrada por inúmeros homens de bem e profissionais competentes, deu um recado àquele veículo e, indiretamente, a todos os demais. Testemunhas podem ser transformadas em ‘suspeitos’, dependendo da firmeza crítica das matérias publicadas. Chavismo quimicamente puro.
O presidente Lula foi reeleito pela vontade maciça dos brasileiros. Seu mandato deve ser, por óbvio, respeitado. Isso não significa um aval à impunidade. Ademais, o próprio presidente da República tem insistido na necessidade de que as investigações avancem e os culpados sejam punidos. Não se pode brincar com as palavras. Não se deve achincalhar o sentimento de justiça dos brasileiros. É importante que o Ministério Público, no cumprimento de seus deveres constitucionais, prossiga no seu ânimo investigativo. É fundamental que os políticos e os governantes saibam que a imprensa, que não se acovardou nos piores momentos da ditadura militar, cumprirá o seu papel, independentemente de patrulhamentos, ataques e pressões.
O presidente da República, que sofreu na própria carne a violência do autoritarismo militar, tem o dever instransferível de cobrar limites aos excessos praticados por seus funcionários, aliados e liderados. É o que a sociedade tem o direito de esperar.
CARLOS ALBERTO DI FRANCO é diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.