Apesar das guerras e conflitos que cercam o mundo, há um item que pode ser considerado apaziguador: a música. Se você entrar em uma grande loja de discos verá que há sessões para as músicas do mundo. Lá cubanos estão ao lado de árabes, americanos, japoneses, indianos, indígenas, etc. A música não gera guerra e, ao contrário de outras manifestações culturais, como a religião, por exemplo, pode ser misturada que resultará em belos efeitos.
E é com esse tipo de caldeirão cultural que a francana Magda Pucci, 42, trabalha há dez anos. Nascida e criada em Franca, aluna de colégios tradicionais da cidade, mudou-se para São Paulo na época da faculdade, há 22 anos, e nunca mais voltou. Na capital, onde as diversas culturas se encontram em cada esquina, ela estudou música erudita, regeu corais e encontrou o próprio caminho ao ouvir o Coral das Mulheres Búlgaras. “Elas tinham um jeito totalmente diferente de cantar e eu fiquei encantada”.
Quando foi para Nova York e conheceu o acervo do World Institute of Music, maravilhou-se com a diversidade de sons a que pôde ter acesso. De volta ao Brasil, estava fundado o grupo Mawaca, conhecido pela diversidade sonora e por apresentar ao público registros de sons de todas as partes do mundo. Músicas celtas, indígenas, orientais, africanas, brasileiras, portuguesas, entre outras, fazem parte do rico repertório do grupo.
O mais óbvio de se imaginar é que para desenvolver esse trabalho Magda viaja muito. É verdade. Ela conhece diversos lugares nos quatro cantos do planeta, mas garante que o forte do seu trabalho não é a chamada pesquisa de campo. “Trabalho muito com as pesquisas já feitas. Quem é pesquisador mergulha em um único assunto a vida inteira. Como a minha idéia é trabalhar sobre as mais diversas culturas, eu trabalho muito com as pesquisas já realizadas. E como esse é um trabalho criativo, é perfeitamente possível de ser feito. Ouço as canções, algum tema me chama a atenção e vou trabalhar em cima dele”, conta. O resultado disso é um trabalho admirado no mundo todo. Recentemente, o grupo se apresentou no Festival Popkomm, em Berlim, e foi considerado a surpresa da noite Brasil Plural, onde mostrou algumas músicas indígenas do show Rupestres . Na próxima semana, o Mawaca subirá ao palco do Sesc (Serviço Social do Comércio) Vila Mariana, em São Paulo, para o lançamento do DVD Mawaca Pra Todo Canto, baseado no disco mais recente do grupo.
Mas o trabalho de Magda não se resume apenas ao Mawaca. Ela também apresenta um programa de rádio, o Planeta Som, na Rádio USP (Universidade de São Paulo). Como o próprio nome diz, o programa leva aos ouvintes justamente as pesquisas que Magda faz e que resultam no trabalho do Mawaca.
Fora as atividades fixas, do dia-a-dia, Magda adora se aventurar por projetos diferentes. Atualmente, faz mestrado em Antropologia na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo. O tema que estuda são as músicas dos índios Suruí. “O meu trabalho tem sido feito em cima do acervo da Beth Mindlin. É um trabalho de análise sobre o repertório que ela recolheu junto a esses índios”, conta.
Agora, essa francana do mundo aguarda ansiosamente o lançamento do CD/DVD Orquestra Mediterrânea, gravado e produzido pelo Sesc. Para ela, esse projeto pode ser considerado uma coroação de todo o trabalho desenvolvido na área de diversidade étnica. Foram reunidos 21 músicos de vários locais do Mediterrâneo, como Argélia, Turquia, França e Espanha. Eles vieram para o Brasil, fizeram cinco ensaios e três apresentações, que foram gravadas para ser lançadas em DVD. “Esse projeto mostra bem a minha história de juntar diferentes tradições, conseguir encontrar os pontos em comum, alinhavar e achar resultados interessantes”, conclui Magda.
Sobre Franca, sua terra natal, Magda assume vir pouco para cá, já que todo seu trabalho foi transferido para São Paulo. “Como meus pais moram aqui e meus irmãos vêm com freqüência, vou pouco a Franca”, diz. Mas isso não significa que ela não tenha feito nada pela cidade e não nutra um carinho grande pelo lugar onde começou sua formação. Há 19 anos, junto com Sílvia Prior, ela propôs a criação do Encontro Coral de Franca. A idéia era divulgar esse tipo de manifestação na cidade. Ficou cerca de três anos à frente do projeto e depois deixou ao encargo de quem ainda morava em Franca. “Fico supercontente de saber que o encontro se mantém até hoje.”
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