E agora, Lula?


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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeeleito com grande votação, mas não recebeu um cheque em branco do eleitor. Pelo contrário, para obter expressiva maioria, foi obrigado a mudar o discurso de campanha e correr atrás dos eleitores que haviam se descolado de sua base eleitoral no primeiro turno, ao votar mais à esquerda com Heloísa Helena (PSoL) e Cristovam Buarque (PDT). Além disso, as promessas de Lula para o segundo mandato – mais crescimento, distribuição de renda e educação –, para serem levadas a sério, exigirão a mudança de rumo do governo, o que só ficará claro quando for anunciado o novo ministério. Pressionado por denúncias e escândalos, Lula deslocou do núcleo de poder os principais operadores da política que pautou sua primeira eleição e a ação do governo, dentre eles os ex-ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antônio Palocci (Fazenda). Dilma Roussef e Guido Mantega, que os substituíram, defendem a política que assegurou a vitória de Lula no segundo turno. Ambos são colaboradores leais e eficientes do presidente, mas isso não quer dizer que permaneçam nas mesmas pastas. Há uma feroz disputa por ambas, que não está restrita aos petistas, pois envolve os políticos aliados (leia-se PMDB) e os setores empresariais que apóiam o governo (no caso, o mercado financeiro). Lula vai ter que trabalhar muito. A agenda do novo governo não é café pequeno, quando nada porque passa por suas relações com o Congresso Nacional, onde a base de apoio de Lula será muito heterogênea. O eixo de sustentação parlamentar tende a se deslocar do PT, o partido dos aloprados, para o PMDB, o partido dos profissionais. Para se ter uma idéia dos problemas que surgirão na relação com o Congresso, basta levar em conta duas propostas já aprovadas no Senado com o apoio da bancada do PMDB: o orçamento federal impositivo e a limitação da reedição das medidas provisórias. Sem orçamento autorizativo, nem medidas provisórias, o governo perde poder de barganha para negociar com o Congresso e fica inteiramente escravo de sua própria base parlamentar. Outros temas fazem parte da agenda do presidente. A questão tributária é um abacaxi, que envolve o contencioso com os estados, outro com a classe média e a própria gestão dos recursos federais. É preciso acabar com a guerra fiscal entre os estados e redimensionar as alíqüotas de Imposto de Renda para atrair a classe média. O futuro da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) é incerto; a vinculação de receitas da União (DRU), principalmente na saúde e educação, engessa os gastos. Na área econômica, o tripé das metas de inflação, câmbio flutuante e aperto fiscal está em xeque. Lula vai mexer no câmbio? Uma ala do governo quer ampliar o Conselho Monetário Nacional (CMN) e avalia que o Banco Central deve fixar a taxa de juros com um olho na inflação e o outro no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para flexibilizar a política monetária. Para completar, as reformas política e trabalhista mexem com o status quo da base política e sindical do governo. Em condições normais, a vitória eleitoral acomoda os interesses e pacifica os partidos políticos. Com o PT pode acontecer justamente o contrário, pois Lula venceu as eleições apesar das trapalhadas dos dirigentes petistas de sua campanha. O ajuste de contas interno ainda não começou, mais já foi anunciado. Há uma pressão de líderes petistas à margem do aparelho partidário – principalmente dos governadores eleitos da Bahia, Jaques Wagner, e de Sergipe, Marcelo Déda, e do ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro – no sentido de mudar o eixo geográfico da direção partidária. Não é coisa assim tão fácil, seja porque a maior votação de Lula continua sendo em São Paulo, seja porque Antônio Palocci, João Paulo Cunha, Ricardo Berzoini e José Genoino se elegeram deputados. Além disso, o senador Aloizio Mercadante e a ex-prefeita Marta Suplicy continuam sendo estrelas de primeira grandeza do PT. LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista

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