Sorte sem preconceito


| Tempo de leitura: 3 min
Todos os dias, pelo menos um mototáxi estaciona na Rua Voluntários da Franca, 1165. A descida é rápida, só para pegar um embrulho com Amaro Olímpio da Silva, 75, que há 37 anos é proprietário do Bazar Boa Sorte. Os mototaxistas são incumbidos de levar para seus “contratantes” velas, defumadores, incensos, essências, guias, imagens, perfume pega-homem, etc. Muitos desses clientes Amaro nunca viu. Tudo porque eles têm vergonha de entrar na loja para comprar os artigos religiosos. No pequeno Bazar Boa Sorte tem tanta coisa que nem seu proprietário é capaz de quantificar. São centenas de mercadorias que contemplam católicos, espíritas e umbandistas. Na prateleira de imagens, por exemplo, o Preto-Velho fica ao lado de Santo Expedito e logo acima de um Buda. Penduradas em um varal, de um lado a outro da loja, estão as guias (espécie de colar) dos mais diversos orixás, objetos usados nos rituais (como capacetes e fantasias) e terços católicos. Não é de se estranhar que pessoas pouco ligadas ao universo afro-brasileiro não gostem daquele ambiente. A umbanda ainda é misteriosa e causa medo em muitas pessoas. Religião surgida com os negros, a umbanda é o sincretismo do candomblé, espiritismo e catolicismo, que tem como elementos os caboclos, pretos-velhos, exus, entre outros, que são entidades desencarnadas na Terra. Não é uma religião considerada ética, ou seja, preocupada com a orientação moral da conduta, mas sim mágica, voltada para a estrita manipulação do mundo*. Na umbanda, acredita-se que seja possível fazer “trabalhos” para o bem e para o mal. E são artigos para esses trabalhos que os mototáxis vão buscar na loja de seu Amaro, que garante que a maioria de seus clientes são mulheres, a partir de 15 anos. As encomendas vão de velas das mais variadas formas e tamanhos, a defumadores, essências, produtos para banho de descarrego, Marafo de Exu (pinga), champanhe da pomba-gira, Santo Antônio casamenteiro, etc. Esses produtos são comprados em fornecedores de São Paulo, Campinas e da Bahia. Os preços variam. Há desde coisas bem baratas, como velas, até produtos mais caros. Algumas imagens podem valer mais de R$ 80. Entre as guias (colares usados pelos umbandistas como proteção), há uma feita de cristais importados que custa R$ 1,2 mil. De formação católica, mas freqüentador assíduo dos terreiros de umbanda da cidade, Amaro diz que sempre quis ter uma loja religiosa. “Acabei me enquadrando na católica, na umbanda e no espiritismo. Mas o carro-chefe dessa loja é mesmo a umbanda”, disse. Se hoje o preconceito ainda existe e as pessoas não querem ser vistas entrando no Bazar Boa Sorte, quando começou era muito pior. “Uma vez eu sofri perseguição policial por causa de um casal de preto-velho que ficava na porta da loja. O pior é que hoje os meus algozes são meus clientes”, afirmou. “Também já cheguei para trabalhar e tinha macumba aqui na porta. Isso sem contar os amigos que perdi por causa da minha escolha”, completou. Hoje, o preconceito é mais velado. Ele contou que está cansado de ver pessoas entrarem na loja dizendo que a compra não é para elas. A única recomendação que faz é para que não se caia na mão de trambiqueiros. “Já vi muita gente vindo aqui atrás de produtos que não existem nem na Bahia. Aí eu aviso na hora que quem pediu isso está querendo somente dar o golpe.” *Definições do sociólogo Reginaldo Prandi, no livro Herdeiras do Axé.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários