Fim da viagem


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Gidálio de Souza Pires (de calça laranja) faz questão de manter toda sua família bem perto; ao todo são 47 pessoas que formam uma comunidade
Gidálio de Souza Pires (de calça laranja) faz questão de manter toda sua família bem perto; ao todo são 47 pessoas que formam uma comunidade
Muitas vezes os trabalhadores das regiões Norte e Nordeste que trabalham na colheita de café e corte da cana-de-açúcar em São Paulo e Minas Gerais são vistos com um certo preconceito. Afinal, o jeito de falar é diferente, a maneira de agir é outra e eles ainda tem fama de brigões. Mas, ao conhecer de perto a realidade dessas pessoas, a opinião pode mudar drasticamente. Basta uma visita e alguns minutos de conversa para se perceber que são pessoas com uma vida sofrida e que se agarram na fé ao lutar por uma vida melhor. Quem mora na zona rural no sertão da Bahia praticamente está esquecido pelas autoridades. Políticos por aquelas bandas só aparecem em época de eleição. A luz elétrica só chegou há dois anos dentro do Projeto “Luz para Todos” do governo federal. Mas há quem espera até hoje, como a família de Rizoneide Rosa de Jesus Silva, 41. “A gente ainda acredita que a luz vai chegar”, diz ela esperançosa mostrando o aparelho de som que já comprou à espera da energia elétrica. As famílias são numerosas e vão formando pequenas comunidades. A maioria teme a solidão no sertão. É uma forma também de uns ajudarem os outros. Gidálio de Souza Pires, 50, é um exemplo disso. Ele e a mulher, Luzia de Jesus Pires, 48, tiveram cinco filhos, mas sempre fizeram questão de manter toda a família por perto. Hoje são 47 pessoas em seis casas, entre primos, irmãos e cunhados de Gidálio. “Eles vão casando e ficando por aqui”, disse ele. São pessoas humildes que vêem na colheita do café em Ibiraci a solução para parte de seus problemas. Aloísio Gomes Rocha, 57, mantém toda a família durante o ano com o dinheiro que ganha em Minas. Mas nem todos têm a mesma “sorte”. O baiano Lauro Gomes da Silva, 56, é um deles. Sempre sonhou em acompanhar seus conterrâneos até Ibiraci para ganhar dinheiro na colheita de café. Não deu. “Sempre ouvi histórias dos meus vizinhos. O que mais me despertou atenção nestes anos todos foi o fato de que a grande maioria sempre voltou para casa com dinheiro suficiente para sustentar a família até a próxima colheita”, disse ele. De Ibiraci, Lauro só conhece as histórias, ele mesmo nunca trabalhou em Minas, mas vontade não faltou. O baiano disse que teve receio de deixar a mulher Adaise Rosa da Silva, 46, sozinha com os 12 filhos pequenos. “Sempre tive vontade de ir para Ibiraci, mas é muito longe e eu tinha medo de deixar a mulher sozinha mais os meninos. Mesmo sabendo que na colheita do café eu poderia ganhar um bom dinheiro para sustentar a mulher mais os meninos”, disse. O tempo passou. Hoje o filho mais velho tem 25 anos e o menor tem apenas quatro anos. “Mesmo com a vontade trabalhar na colheita do café em Ibiraci, não vai ter jeito. Estou ficando velho e além disso, ainda tenho menino pequeno”. Na imaginação de Lauro, Ibiraci é uma cidade rodeada por grandes fazendas de café. Simples assim. “Como nunca fui lá é assim que imagino. O meu filho mais velho foi no ano passado e gostou muito”, disse. Neste ano, o rapaz não veio e pelo mesmo motivo do pai: nasceu o seu primeiro filho. “Talvez no ano que vêm dê para ele ir. Senão fica como eu, só na vontade”. Como o filho de Lauro, na colheita de 2007 milhares de baianos deverão viajar mais 1,3 mil quilômetros de Sussuarana até Ibiraci para colher café e, quem sabe, um pouco mais de esperança.

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