<p>Enfrentar um frio de -20 ºC, ficar dias sem tomar banho, dormir com quatro camadas de roupa e bota em acampamentos montados em lugares inóspitos, sem nenhuma estrutura. Esse foi o roteiro que o professor de Educação Física Ricardo Dantas, 30, escolheu para suas últimas férias, em julho deste ano. Junto com mais três amigos ele embarcou para a Bolívia na expedição Huayna Potosi. Foram 15 dias de uma aventura que culminou com a chegada ao monte Huayna Potosi, a 6 mil metros de altitude. </p>
<p><br />E essa não foi a primeira vez que o professor embarcou nesse tipo de aventura. No ano passado, escalou o monte Huayhuash, no Peru, com 5,4 mil metros de altitude, e teve de enfrentar até tempestade de neve. </p>
<p><br />Tal espírito aventureiro ele acha que vem desde criança, quando enlouquecia os pais ao se embrenhar pelas matas para subir em árvores. Hoje, além das aulas de Educação Física, Ricardo trabalha como monitor de turismo de aventura em Delfinópolis (MG), onde ajuda as pessoas a fazer rapel, caminhadas e trilha pela mata. Nesta entrevista, ele fala um pouco sobre essa paixão pelas aventuras e conta detalhes das duas expedições. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Por que você resolveu começar a fazer essas expedições pelas montanhas geladas da América do Sul?<br />Ricardo Dantas</strong> - Acho que é um espírito aventureiro que vem desde criança, quando eu gostava de subir em árvores. Além disso, eu já trabalho com turismo de aventura em Delfinópolis (MG), onde moro. Aí eu encontrei mais três amigos que gostam desse tipo de viagem e resolvemos fazer as expedições. </p>
<p><strong>Comércio - Quando e como foi a primeira expedição?<br />Ricardo</strong> - Fiz a primeira expedição fora do Brasil em 2005. Fui para o Peru com mais três amigos, os mesmos que foram comigo neste ano. Foram 10 dias andando ao redor de uma cordilheira, entre quatro e 5,4 mil metros de altitude. É um lugar totalmente isolado, sem nada. Há umas pequenas vilas por lá, mas é tudo muito precário, sem estrutura alguma. Nós fomos acompanhados por guias do local, que ajudam em tudo. </p>
<p><strong>Comércio - E como é a alimentação em um lugar tão inóspito? Vocês precisam levar tudo?<br />Ricardo</strong> - Sim. Compramos comida para dez dias, o suficiente para seis pessoas. Aí os guias levam uns burrinhos que carregam esses alimentos nas costas. Tem também um nativo que fica responsável somente por cozinhar. </p>
<p><strong>Comércio - O que vocês comiam?<br />Ricardo</strong> - Quase as mesmas coisas que comemos aqui. A base é batata e arroz. Mas também comíamos carne de boi e ovelha e tomávamos sopa. Geralmente a gente tomava um bom café-da-manhã, comia um lanchinho na hora do almoço e, à noite, uma sopa e um prato quente com batata, arroz e carne. </p>
<p><strong>Comércio - E para beber?<br />Ricardo</strong> - Tomávamos muito chá de coca, que é uma bebida local, leite em pó e água quente. Quando estamos em alta altitude é muito importante beber bastante líquido porque a desidratação é mais rápida. Como respiramos mais rapidamente, perdemos mais vapor. Parece que não, mas faz muita diferença. </p>
<p><strong>Comércio - Nos tempos livres, quando anoitecia e vocês ficavam dentro da barraca, o que faziam? Vocês levaram algum tipo de distração como livros, revistas ou CDs?<br />Ricardo</strong> - Nesses lugares escurece cedo, às 18 horas. E depois que fica escuro é difícil fazer qualquer coisa. Então eu levei um MP3 player com um estoque de pilha. Esse ano fui com 12 jogos de pilhas recarregáveis. No ano passado levei 30 jogos de pilhas comuns. Mas lá elas descarregam mais rápido por causa do frio. </p>
<p><strong>Comércio - E como vocês faziam para tomar banho? <br />Ricardo</strong> - O ano passado foi bem pior do que esse. No Peru, a gente ficou praticamente dez dias sem tomar banho. Na verdade tomamos dois banhos com a água de um lago que estava quase congelado. Foi o chamado banho de gato. Lavamos somente o rosto e as partes íntimas. Um dia, o guia falou que teria uma água vulcânica e que daria para tomar um banho quente. Ficamos super animados, mas quando chegamos no local a água tinha 80 ºC. Eu falava que não tinha como tomar banho naquela água e o guia falava que era possível, mas tentava entrar e não conseguia. A gente só conseguiu tomar banho nesse dia porque encontramos um riachinho morno formado com uma água que escorria desse lago vulcânico. </p>
<p><strong>Comércio - Na expedição desse ano, para a Bolívia, vocês tiveram o mesmo problema?<br />Ricardo</strong> - Esse ano foi melhor porque a gente não ficava mais que três dias fora da cidade. Ficávamos três dias na montanha e voltávamos para um hotel em La Paz (capital da Bolívia). Foi um projeto de aclimatação que a gente fez. Fazíamos caminhadas mais leves e voltávamos, até atingirmos 5,2 mil metros. Nessa altitude fizemos o último acampamento, no 12º dia de viagem. De lá a gente partiu para a escalada final. Saímos a 1 hora da manhã desse acampamento e chegamos no cume da montanha, a 6 mil metros, às 6 horas. Foram cinco horas de subida na neve. Ficamos lá em cima uns 40 minutos e chegamos de volta ao acampamento às 10 horas. </p>
<p><strong>Comércio - Por que subir de madrugada?<br />Ricardo</strong> - A escalada noturna é costume de alta montanha. Durante o dia é perigoso. A neve derrete por causa do calor e há deslocamentos de placas de gelo. No horário frio não tem muitas mudanças na montanha. Quando chegamos ao acampamento, às 10 horas, já não tinha mais problema, porque era na rocha.</p>
<p><strong>Comércio - E como foi essa escalada?<br />Ricardo -</strong> A escalada final é a mais difícil e também a mais emocionante. Vamos com uma bota especial e um martelinho que é usado para fincar na parede de gelo e poder subir. É como um rapel em um paredão de gelo.</p>
<p><strong>Comércio - Não dá medo?<br />Ricardo</strong> - Dá sim. Mas é um medo que você controla. Fomos para isso mesmo. Mas se eu falar que não dá medo vou estar mentindo. </p>
<p><strong>Comércio - Em algum momento vocês passaram por uma situação de risco?<br />Ricardo</strong> - Nesse ano não. Mas no ano passado sim. Quando chegamos ao cume, a 5,4 mil metros, começou a fechar o tempo. De um lado o céu estava azul, mas atrás da montanha vinha uma tempestade de neve. Tanto que ficamos só uns cinco minutos em cima da montanha. Quando a gente chegou, os guias já ficaram desesperados querendo descer. Durante a descida começou a nevar. Isso era meio-dia. Aí encontramos um grupo de italianos que estava fazendo a mesma coisa e virou uma confusão. Tinha um pedaço que era preciso descer de rapel. Estávamos em cinco e eles em oito. Ficou aquele bolo de gente em um lugar perigoso, tinha que esperar um descer de cada vez, aquela nevasca, todo mundo nervoso. Foi horrível. Você acha que não vai mais sair dali. Não enxergávamos nada, estava tudo branco, neve acumulando na roupa. Foi muito ruim. </p>
<p><strong>Comércio - Apesar de todas essas dificuldades, qual a sensação de chegar ao cume da montanha?<br />Ricardo</strong> - Acho que o que tem por trás dessas expedições é o desafio. Porque é tudo muito difícil, muito desconfortável. É um lugar diferente, uma rotina diferente e, o que é pior, você fica muito mais lento. Para se ter uma idéia, em cinco horas de subida a gente percorreu dois quilômetros. Então acho que é esse desafio e a superação que ele proporciona que compensa.</p>
<p><strong>Comércio - E qual é o maior desafio de todos nessa empreitada?<br />Ricardo</strong> - Com certeza o frio. O sol some as 18 horas e a temperatura chega a 1 grau. Mesmo com quatro camadas de roupa, sacos de dormir especial para -15 ºC, a gente sente um pouco de frio. </p>
<p><strong>Comércio - Que tipo de roupa vocês usavam para se proteger desse frio?<br />Ricardo</strong> - São quatro camadas de roupa. A primeira é parecida com uma lycra, mas é meio aveludada por dentro. Depois vem uma que parece uma camurça. Colocamos duas peças dessa e, por último, uma jaqueta impermeável. Só que na verdade a gente sua por baixo dessa roupa toda. Aí quando esfria muito a gente tá molhado e sempre acaba sentindo um pouco de frio. </p>
<p><strong>Comércio - Você pretende fazer outra viagem dessas?<br />Ricardo</strong> - Se você me perguntasse isso na semana em que cheguei eu diria que não. Mas agora, passados três meses, eu acho que sim. Só não sei para onde. </p>
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.