“É uma casa bem arrumada/Mas de carpete, não tem nada/Prender cortina na janela, não/Pano molhado, para limpar o chão/Tira o ursinho de pelúcia daqui,/Porque a rinite pode explodir/Tira o cigarro, fumar não pode/Se não a Mara toma corticóide/Aliviada, tomou vacina/Agora, cuidado com a recaída”. A paródia em questão, que ousa subtrair a melodia da composição de Vinicius de Morais, A casa, exemplifica a rotina na residência da jovem Mara Cristina de Vietro, 17 anos. Alérgica desde seu primeiro mês de vida, ela viu sua adolescência com olhos lacrimejando, passou anos com uma intensa coceira no nariz e, aos espirros, praguejou contra o pó e o tempo seco. Somente aos 16 anos, descobriu uma “cura” para sua rinite alérgica através de vacinas. Hoje, respira aliviada, mas mantém todos os cuidados dentro de casa para evitar novas crises.
Quatro em cada dez pessoas têm algum tipo de rinite, sejam elas crianças, jovens ou adultas. A doença é uma inflamação da mucosa nasal causada por agentes externos - poeira doméstica, poluição, inseticida, tinta, combustíveis ou até perfume - após um processo que se inicia com uma irritação. Não há cura, por isso, Mara Vietro terá de conviver com ela para o resto da vida. Mas existem tratamentos e cuidados pessoais que amenizam os efeitos das crises e podem até fazê-las “hibernar” por um longo período. “Depois de anos sofrendo com os olhos lacrimejando e uma coceira insuportável, principalmente durante as épocas mais secas em Franca, hoje posso dizer que estou ‘curada’, pois consigo ficar bastante tempo sem ter crise alérgica”, disse a estudante.
As crises alérgicas que hoje diminuíram para Mara são também fator de alívio para sua mãe, a dona de casa Regina Célia Robim de Vietro. Ela conta que, desde pequena, a filha desenvolveu um caso alérgico após o outro. No primeiro mês de vida foi uma laringite, depois se seguiram bronquite e asma até descobrir também a rinite alérgica. “Foi uma revolução em casa. Tivemos de abolir carpetes, cortinas, cobertores foram substituídos por edredons, colchões e travesseiros tiveram de ser forrados com materiais antialergênicos. Tudo para diminuir o sofrimento dela (Mara)”, disse a mãe. Regina ainda perdeu as contas de quantos médicos procurou para resolver o problema e o quanto gastou com remédios que pouco ajudaram. Diversas fórmulas, incluindo vasoconstritores nasais, corticóides e anti-histamínicos, até ser testada a vacina de hipossensibilização.
O tratamento é feito com os principais antígenos que podem causar a rinite em um determinado paciente, com resultados variáveis. O objetivo, neste caso, é promover a formação de anticorpos.
DEFORMAÇÕES
O caso de Mara Cristina Vietro, guardadas as proporções, não foi tão severo quanto outros casos de obstrução nasal. Há problemas do tipo que levam à má-formação ou mesmo deformidades faciais e bucais graves. “É o chamado ‘aspecto abobado’, que ocorre em crianças que não são tratadas no início, quando a interrupção da respiração força-as a respirar pela boca”, explica a médica especialista em otorrinolaringologia, Vera Pontes Oliveira Rezende.
Dentes projetados para frente, olheiras, rosto caído, língua no meio dos dentes são seqüelas deixadas, por exemplo, por uma rinite alérgica crônica não tratada.
De acordo com a médica, o problema é mais freqüente em crianças com idades entre 2 a 10 anos, quando os ossos da face estão em plena formação. “É preciso ficar atento aos sintomas da rinite: uma espécie de resfriado freqüente, com coriza, olhos e nariz coçando e espirros”, diz. A doença, que não é contagiosa, mas pode ser hereditária, ou seja, transmitida pelos pais para suas futuras gerações, requer medidas preventivas tanto durante o inverno, quando o tempo é seco, quanto no verão.
“Durante a época das chuvas, também é importante a preocupação com pontos de bolor nas paredes de dentro de casa. Os pacientes com rinite alérgica também sofrem com a presença de fungos”, diz Vera Rezende. A dica, segundo ela, é manter a casa sempre limpa e sem a presença de umidade. “Prevenindo, dá para se conviver com a doença, mas sem crise.”
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