Um dia qualquer...


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Nasceu André, há não mais de trinta anos, e o outro de igual nome, há não mais de vinte. Nunca se conheceram apesar de viverem na mesma cidade, pois o segundo mudou-se pra cá há poucos anos. Talvez já tenham até se cruzado por alguma praça, avenida ou fila de banco. Quem sabe até sentaram-se lado a lado em um banco de ônibus circular sem saber que ambos eram designados pela mesma combinação de cinco letras. Quem vai saber? Embora “Andrés”, cada qual se personalizou de forma diferente. E não se mereciam, pois não se sabiam. E não se odiavam, pois não se escolheram. Do primeiro posso falar por convivência, por amizade, por afinco, por osmose. Do outro apenas por dedução, dedução que mais tarde seria sorvida das páginas sangrentas de algum jornal que o passado engavetou, e que vez por outra, quando o vento da saudade sopra, faz a poeira da lembrança do primeiro entrar pelo nariz dos que teimam em não esquecer a covardia do segundo. Se ninguém nasce mal, a quem vamos culpar? O sistema? Mas por quê tantos são bons? Os pais? Mas será que é isso que um pai espera? E uma mãe? Pois nada mais somos que um pedaço de nossas mães. Então, a quem culpar? Pois ambos os jovens gozavam de iguais condições para buscar tudo o que lhes era peculiar, tudo o que é peculiar a qualquer jovem. Às vezes é difícil não cair no abismo do ódio, mas isso logo passa quando me lembro das palavras do pai do primeiro: “Vamos deixar a violência para os violentos!”. Como é que um pai passando por tamanha dor pode ter um pensamento tão tocante e bonito? É isso que às vezes sara um pouco a dor da perda de nosso amigo André, nosso eterno “Ameba”, saber que nem todos se tornam maus. É fácil achar qualidades naqueles que já se foram, mas sendo filho de um pai tão sábio e são quanto este citado anteriormente, não é de se estranhar que nosso “Ameba”, o primeiro André, tenha sido um grato presente na vida de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. O difícil não é saber que nunca mais vamos vê-lo, nem que jamais poderemos freqüentar juntos os shows de “rock” que ele tanto gostava. O difícil é tentar entender por que duas vidas podem tomar rumos tão diferentes, e ainda assim acabarem se cruzando de forma tão trágica e lamentável. O difícil é tentar saber quem será o próximo, e pensar que sem aviso prévio poderemos esbarrar em outro pesadelo. O difícil é perceber que ninguém faz nada, e que com o tempo a gente acaba se acostumando. O difícil é sentir que a cada dia nos embrutecemos mais um pouco, nos fechamos para a vida mais um pouco, e o medo e a revolta nos fazem morrer mais um pouco... Para quem não sabe do que falo, faço-me entender. O primeiro André, nosso querido “Ameba”, é André Luiz Bastos Tozato. O segundo é André Ricardo Torrente Reche. André Luiz, nosso “Ameba”, foi assassinado com um tiro dado por André Ricardo pelas costas, no final do ano passado, quando o segundo armou uma emboscada contra o primeiro que trabalhava como mototaxista. Nosso “Ameba” morreu instantaneamente sem ter chance de se defender, o outro até onde se sabe, foi encontrado morto em uma cela da penitenciária desta cidade, no final da semana passada. Do primeiro só nos resta recordar com alegria e ressaltar sua simpatia contagiante e seu jeito pueril, e que a alegria que ele nos deu esteja sempre com ele. Do segundo não tenho nada a dizer, apenas desejo que o negror do mundo o acompanhe por toda a eternidade... A frase do pai de André Luiz, “Vamos deixar a violência para os violentos”, foi dita a mim e a todos os amigos de nosso saudoso “Ameba” no dia de seu enterro num cemitério desta cidade, numa manhã fria e cinzenta de outubro...um dia qualquer. JEAN LUVISOTO, amigo de André Luiz Tozati

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