No início de setembro, a temperatura em Sussuarana (BA), a 500 quilômetros de Salvador, já estava mais amena. Bem diferente dos quase 40 graus de meses anteriores. O céu escurecia quase todas as tardes. Mas chuva, que é bom, é coisa rara por aquelas bandas - no ano passado, demorou dez meses para chegar. Como não chove com tanta freqüência, não há como plantar. Os rios secaram. Para não morrer de sede, os habitantes estocam água da chuva em poços nos fundos de casa. A água é amarelada e tem gosto ruim. O único verde que predomina é o da palma (planta usada para alimentar o gado, que sofre com a falta de pasto).
Sem água para plantar, os baianos não têm outra alternativa senão “fugir” da seca, a grande vilã do sertão.
A falta de chuva faz com que essas pessoas tenham uma vida crítica. Para não passar fome, milhares de baianos todos os anos viajam para Ibiraci (MG) para trabalhar nas fazendas de café.
Com o dinheiro que ganham conseguem melhorar a qualidade de vida. No entanto, não conseguem acabar com a seca. Para montar um sistema de irrigação ficaria muito caro, afinal o rio mais próximo está a mais de dez quilômetros. Projeto que nem chega a ser cogitado pela maioria.
Outra solução seria furar poços artesianos. Outro gasto inviável, podendo ultrapassar R$ 1 mil. “Para chegar até a água-doce precisa furar muito fundo e nem todo mundo tem condições de pagar pelo serviço”, disse Aloísio Gomes Rocha, 57, que mantém um poço no fundo de sua casa com água da chuva. A água amarelada é usada para tudo: desde os afazeres domésticos até o consumo. Não há filtro e raramente é fervida.
Há famílias com um pouco mais de sorte. A de Gidálio de Souza Pires, 50, foi contemplada por um projeto da igreja católica com uma cisterna construída ao lado da casa para acumular água da chuva recolhida através do telhado. A água é mais limpa e o gosto um pouco melhor. Gidálio gostou tanto do projeto que ingressou em um curso e aprendeu a construir cisternas, que têm capacidade para 24 mil litros. “Com a cisterna ficou bem melhor.
Só que a gente tem que continuar economizando para durar até a próxima chuva”, disse Luzia Pires, 48, mulher de Gidálio.
Pelo trabalho, Gidálio ganha R$ 50. Em dois anos construiu mais de 100 cisternas. Só tem um problema: “O projeto custa R$ 1.800 e nem todo mundo tem dinheiro para pagar”, lamenta ele.
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Contrastando com os açudes de água turva, há regiões onde existem grandes lagos de água clara. À primeira vista parece um oásis no meio do sertão. Mas só tem beleza. A água é salgada e não serve para irrigar ou lavar roupa. “Tem que usar muito sabão por causa do sal, que também pode matar as plantas”, afirma Maria Aparecida Jesus Pires, 33, que a cada dois dias anda seis quilômetros para buscar água. “Vou de bicicleta buscar água. É muito difícil”, disse Maria. Diferente dos vizinhos, ela não conseguiu conservar a água da chuva. “Além de buscar água para beber, tenho que andar vários quilômetros para lavar roupa”, contou.
Outra que também não tem uma vida muito fácil é Maria das Graças dos Santos, 42. Ela tem uma cisterna onde reserva água para o ano inteiro, porém, para lavar roupa, é preciso pegar água no açude nas proximidades de casa. O lago fica encoberto por um lodo grosso e a água não serve para beber. “A vida aqui não é fácil”, disse.
Outro que também sofre com a seca é Joaquim Alves da Silva, 59. Enquanto os filhos trabalham em Minas, ele passa o ano cuidando da roça de algodão, que é a única cultura que resiste à seca. Todos os dias, ele anda durante 40 minutos em meio à caatinga.
Na sacolinha de plástico leva a marmita e uma garrafa de água, já que não há rio ou mina nas proximidades da roça. O rio que existia secou há anos e hoje é usado como estrada por Joaquim até a roça de algodão. “Acho que nunca mais vou ver correr água por esse rio”, lamenta.
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