Um dia, Cláudio da Silva, 37, escorregou de cima da lona de um circo onde trabalhava. Estava garoando e os amigos logo disseram: “Caiu como um chuvisco”. Cláudio já mudou de circo dezenas de vezes e o apelido sempre o acompanhou. Hoje ele é apenas Chuvisco. Natural do Rio de Janeiro, mas criado no Paraná, ele está em Franca há quatro meses. Deixou o circo em que trabalhava em Curitiba e veio para a terra do calçado tentar a vida como palhaço de rua. Trabalha principalmente em lojas e festas de aniversário, brincando com as crianças e transformando bexigas em bichos, espadas, corações, etc. São mais de 50 formatos diferentes e 400 “obras de arte” por dia. Isso quando tem trabalho, é claro. “Às vezes passo um dia inteiro parado”, diz. Mas agora ele está mais animado. Com a proximidade das festas de fim de ano e o fato de já estar conhecido na “praça”, as oportunidades aumentam. “Tenho esperança de que vai melhorar”.
Aqueles que pensam que a vida de palhaço de rua é uma triste opção de quem não consegue mais trabalho no circo está muito enganado. Chuvisco recebeu uma proposta recentemente, mas preferiu ficar na cidade. “Agora que estou ficando conhecido é melhor continuar na rua”, diz. Mas isso não significa que ele não goste do circo. “Eu adoro o circo porque estou acostumado com aquela vida debaixo da lona. A coisa mais bonita é a gente sair em caravana, chegar a uma cidade e ser recebido pela população. Só que o circo hoje atravessa muita dificuldade.”
Se há 20 anos o circo era programa garantido para as famílias, com a chegada da internet e de outras formas de diversão acabou por perder espaço. Além disso, a proibição de números com animais em alguns Estados, incluindo São Paulo, tirou um pouco do encanto dos espetáculos sob a lona. “A essência de um circo é o palhaço e o leão. Mas hoje os leões foram substituídos por gatos, que fazem os mesmos números mas não têm a mesma graça, o mesmo impacto”. Chuvisco se lembra de quando trabalhou no Circo Garcia e havia três ursos polares de 3 metros de altura cada um. “Aquilo era uma sensação. O circo ficava lotado”, rememora.
Na sua carreira de palhaço, Chuvisco passou pelo Circo Garcia, Di Roma, Stankovich, Casale, Medrano, Irmãos Rodrigues, Le Cirque (antigo Norte-Americano), entre outros. O primeiro contato com esse mundo foi quando tinha 14 anos. Criado por uma tia e também em orfanato, Chuvisco decidiu que era a hora de tentar a vida sozinho. Viu um circo na cidade de Londrina, onde morava, e resolveu conhecer. Acabou contratado para trabalhar como tratador de animais. Depois se tornou assistente de domador e, finalmente, palhaço. “No circo eu descobri minha vocação. Não me vejo fazendo outra coisa”, diz. Apesar de todas as dificuldades, ele diz que se tivesse de escolher faria tudo de novo. “Se vestir de palhaço é fácil. Mas você não pode só se vestir, tem que entrar no personagem”, explica.
E aquela lenda de que todo palhaço carrega uma tristeza muito grande, será que é verdade? “Quando você está sem a fantasia, é uma pessoa normal. Agora, quando veste a fantasia, você vestiu o personagem. Aí, parece que seus problemas todos somem”, conta. “Mas com certeza a vida é melhor com a fantasia, quando você se desliga dos problemas”, completa.
VIDA NO CIRCO
Quando falamos em circo, logo imaginamos aquela vida romantizada dos filmes, de famílias inteiras que se formam sob a lona e vivem felizes para sempre. Mas Chuvisco conta que, embora isso aconteça mesmo, há muito trabalho além do picadeiro. “Picadeiro é picadeiro. Os bastidores são outra coisa”, afirma. Assim como em qualquer empresa, um circo tem chefes. Ou melhor, três chefes. “Primeiro vem o capataz, depois o gerente e o secretário”, conta. E todos cobram de seus funcionários rendimento, aperfeiçoamento e cumprimento de contrato.
O faturamento dos artistas geralmente é por número. Por isso, muitos fazem mais números para conseguir um extra. O palhaço vira mágico, o mágico transforma-se em trapezista, o trapezista faz malabares e assim por diante. Há ainda aqueles que aproveitam o intervalo para vender pipoca, amendoim ou brinquedos para as crianças. Isso sem contar a parte de manutenção do circo, que na maioria das vezes é feita pelos próprios artistas. “Não é uma vida fácil. Existem pessoas ruins, que só querem explorar a gente, mas também existem pessoas boas, que pagam bem e tratam bem os funcionários. Como acontece em qualquer trabalho, o artista de circo tem suas dificuldades.
Ainda assim eu tenho saudades”, arremata Chuvisco.
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