Mais de 750 empresas e uma capacidade de produção anual de 37,2 milhões de pares. Isso é parte do que representa o calçado em Franca. Mas por trás desses números está o grande responsável pela manutenção da qualidade do produto confeccionado na cidade: o sapateiro. É ele quem levanta bem cedo, antes mesmo do sol nascer, pega sua mochila com uma marmita de comida e parte para o trabalho a pé, de ônibus, bicicleta, moto e, alguns poucos, até de carro. Trabalha oito horas por dia, às vezes mais, e retorna para casa. O corpo já está cansado, mas a sensação é de dever cumprido.
Essa é a rotina de mais de 15 mil sapateiros que trabalham na formalidade em Franca. Há ainda milhares que trabalham em bancas que terceirizam serviços e não têm registro em carteira.
É verdade que, ao longo dos anos, muitos têm buscado outras alternativas de trabalho. Mas há quem persista, quem não pensa em deixar a profissão e, mais, que procura crescimento com o trabalho ou faz com que ele seja um elo com a família. Ângela Maria de Paula, 36, é uma dessas pessoas. Começou a trabalhar com 14 anos em uma fábrica de grande porte e logo já estava pespontando calçados. Há doze anos, resolveu trabalhar em casa e assim pôde ficar em tempo integral com o filho Eliel, que na época era um bebê. Há sete anos, Ângela levou a mãe para trabalhar com ela e, de lá para cá, a família está cada vez mais unida. “Minha mãe, talvez pela idade, não consegue emprego em fábricas. Trabalhando comigo ela pode pagar a Previdência e logo vai se aposentar”. Além de estar o tempo todo com a mãe, Ângela tem a vantagem de passar o dia com o filho. “Ele estuda à tarde e durante toda a manhã está comigo.” Apesar de não revelar quanto obtém no final do mês com o trabalho, ela garante que seu salário faz diferença no orçamento da família. “É muito importante. Não penso em deixar a profissão que escolhi”, afirma.
Antônio Eurípedes Valim, 52, que por 17 anos foi empregado da empresa Samello, sabe bem o que é trabalhar nos fundos de casa e empregar toda a família.
Há 16 anos, montou uma pequena fábrica no quintal de sua casa. A produção era pequena, mas a vontade de crescer não. Hoje, além de empregar um filho e a mulher, ainda tem, pelo menos, cem famílias que dependem de sua empresa direta e indiretamente. Ele se considera sapateiro, sempre sapateiro. Tanto que mantém o filho na linha de produção. “Meu filho faz de tudo. Trabalha como todos os funcionários”. Seu sócio, José Luiz Malta, 58, também pegou pesado antes de comandar a empresa. Foi costurador de sapatos. Apesar de se manterem ocupados com a administração da empresa, eles não deixam de conferir de perto o trabalho que é feito e, às vezes, chegam a ajudar na produção, recordando os velhos tempos.
Para Júlio Andrade, 42, apesar de cansativo, o trabalho em casa tem suas vantagens. Há dois anos ele e a mulher deixaram a fábrica onde trabalhavam e, nos fundos de casa, começaram a produzir. Apenas os dois trabalham. Os filhos são pequenos (uma menina de 6 e um menino de 9 anos). “Nós pespontamos 40 pares por dia. Não dá para ganhar muito além do que a fábrica pagava, mas não precisamos pagar ninguém para olhar as crianças”, disse Júlio. Apesar de feliz com o emprego, ele sonha com outro futuro para os filhos. “Não parece, mas ser sapateiro é um trabalho pesado. Cansa muito e não se tem muito reconhecimento. Não quero isso para meus filhos. Sonho que eles estudem e busquem uma outra profissão”, finaliza.
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