Heitor Villa Lobos, um dos compositores eruditos mais conhecidos do País, certo dia resolveu subir o morro carioca. Conheceu sambistas como Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Assim, abriu caminho para algo que pode parecer impossível: a fusão do erudito com o popular.
O que se viu no domingo à noite do Teatro Municipal de Franca, durante encerramento do 19º Encontro Coral de Franca, foi uma amostra de que os dois gêneros podem conviver muito bem e, o que é melhor, atingir o mesmo tipo de público.
A noite foi aberta com o coral da Unifran (Universidade de Franca) e Orquestra de Câmara. Músicos de smoking, coralistas de vestido longo e maquiagem. Todos impecavelmente trajados e sob a batuta precisa de Fátima Calixto apresentaram um espetáculo com peças clássicas como Carmem, de Bizet, Carmina Burana, de Carl Off e Turandot, de Puccini. O acompanhamento foi de uma orquestra e seus violinos e violoncelos. Em seguida, no mesmo palco, mulheres e homens, a maioria negros, vestidos com roupas de tecidos simples, faixas na cabeça e de pés descalços, cantaram a história do negro, que veio ao Brasil para ser escravizado, ao som dos atabaques e de canções como Cangoma, Abagagi, Zum Zum e Zambi, todos cantos africanos. Os dois grupos arrancaram aplausos da platéia. Da mesma platéia.
Ali, não houve distinção de raças. Se Fátima Calixto precisou fazer “bis” de Carmina Burana, Hosana Janaína, regente do coral Afro-Francano, levou a platéia a minutos seguidos de aplausos. Fez o público sair do teatro sabendo que “macumba” não é mandinga, mas sim uma árvore sob a qual os negros se reuniam para rezar.
HISTÓRIA
O Coral da Unifran tem 13 anos de existência, uma longa história, várias formações e diversos espetáculos montados, não só de música clássica, mas também popular. As atividades do coral são voltadas tanto para alunos da Universidade como para a comunidade em geral. Para 2006, o grupo já tem pelo menos duas grandes apresentações marcadas: um concerto de Natal que acontecerá no Poliesportivo dia 14 de dezembro, no qual se apresentará acompanhado de uma orquestra sinfônica; e duas apresentações no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, também em dezembro.
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Já o Coral Afro-Francano tem sete anos de fundação. Seu mentor foi o poeta Carlos Assunção, uma das pessoas mais engajadas pela causa negra em Franca. Hoje sob a batuta da regente Hosana Janaína da Silva, o coral voltou à ativa, depois de um ano parado, na apresentação de domingo. Fez uma homenagem a seu criador e também a seu principal elemento, o negro.
No palco, os dois corais mostraram que a diversidade existe para ser explorada da melhor maneira possível; comprovaram que os contrastes existentes na área cultural não significam que um espetáculo seja melhor do que o outro, apenas que são diferentes.
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