A volta para casa


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Já passavam das 11 horas do dia 5 de setembro. Aloísio Gomes Rocha, 57, andava de um lado para outro na Praça Raul Soares, em Ibiraci (MG). Fazia frio, mas ele de tão agoniado nem sentia. Também não conseguia parar. Conversava com um, conversava com outro e nada do tempo passar. Também pudera, Rocha chegou à praça pouco depois das 7 horas acompanhado dos filhos Maradona, 16, e Luís Carlos, 15, com um objetivo: voltar para casa depois de oito meses fora. Durante esse tempo ele capinou e colheu café nas fazendas de Ibiraci como o fez nos últimos três anos. Aloísio fazia parte de um grupo de 46 baianos que não via a hora de entrar no ônibus e começar a viagem de volta para casa. A agonia se arrastou por mais de uma hora. Os trabalhadores precisaram esperar o pagamento pelo trabalho na colheita ser depositado em suas contas no banco. Viajar com muito dinheiro no bolso é muito arriscado. Finalmente, às 12h20, o ônibus fretado para levá-los até Sussuarana (a 400 quilômetros de Salvador) iniciava a viagem. Pela frente, 1300 quilômetros. Apesar da distância, ninguém estava desanimado. Pelo contrário. Os olhos até brilhavam de felicidade. Na estrada, a maioria abre bem as janelas do ônibus e coloca a cabeça para fora. É hora de se despedir de Ibiraci. Dali a poucos minutos chegam a Franca. Alguns acham a cidade grande, que só conheceram pela janela, linda. A primeira parada acontece por volta das 14 horas em um posto de gasolina para pegar mais passageiros. Apertando entre um tanquinho de lavar roupa, uma bacia e muitas caixas, sempre cabe mais uma mala. O que não couber, vai em cima mesmo. “É preciso fechar os olhos para o excesso de bagagem. Já é um povo tão sofrido, não merece deixar nada para trás”, diz o motorista Abrão Alves Medeiros, 56. Pronto. É hora de voltar para a estrada e continuar a viagem. Pouco tempo depois avistam o Rio Grande. Alguns aproveitam para tirar fotos da Represa Jaguara. Outros só dizem adeus a São Paulo. A volta para casa é muito animada. Rádio de pilha ligado no máximo, muitas piadas e histórias para contar. Ninguém se importa com o som alto. De tão ansiosos, muitos também não conseguem dormir. Para o casal Ailton de Jesus, 33, e Maria Aparecida Jesus Pires, 33, a viagem é ainda mais longa. Para economizar na passagem, que custa R$ 120 por pessoa, se apertam nas duas poltronas com os filhos Charles, 10, e Lázaro, 8. “Eles ficam disputando o espaço nos meus pés para tirar um cochilo”, diz Ailton. Quando o ônibus passa por Patrocínio de Minas já é noite. Por volta das 21h20 é hora de fazer mais uma parada em um restaurante a beira da estrada. A fila do banheiro é enorme. É preciso ter paciência. Depois mais uma fila para comprar o marmitex. Isso mesmo. Poucos comem sentados nas mesas do restaurante. A maioria gosta mesmo é de comer dentro do ônibus. Detalhe: com ele parado. Com o cheiro forte da comida, só abrindo a janela para ventilar. Os homens aproveitam para fumar e conversar. Uma rodinha aqui, outra ali e mais uma conversa que termina em muita risada. De volta para a estrada em pouco minutos, Pirapora fica para trás. Quando o ônibus entra em Montes Claros, já passa de 1 hora da manhã. É hora também de trocar o motorista e abastecer. A viagem continua e o ônibus vai deixando para trás Janaúba, Porteirinha, Catuti, Monte Azul e todo o Estado de Minas Gerais. Finalmente, às 5h45, o ônibus entra na Bahia. Logo se avista a cidade de Urandi e a primeira parada acontece quinze minutos depois. É hora de tomar café. Apesar de muito cedo, todos descem do ônibus com um sorriso no rosto. Estavam em casa. Aloísio Rocha não cabe dentro de si de tanta alegria. “Estamos chegando”, comemora. Pela frente mais quatro horas de viagem. A maioria só tomou café, mas houve quem encarasse um conhaque. O sol já despontava no horizonte e a paisagem vista pela janela do ônibus agora era bem conhecida pelos baianos. A caatinga é o personagem principal dali para frente. A viagem prevista para durar 24 horas, rendeu. O asfalto de boa qualidade em grande parte do trecho faz com que a volta para casa fosse completada em 22 horas. Buraco mesmo só nas proximidades de Sussuarana, destino da maioria. Por volta das 10h15 o ônibus entra em uma estrada de terra. A viagem chegava ao fim para a família de Osmar José de Oliveira, 54. Depois de três meses em Ibiraci, Oliveira segura a emoção quando avista sua casa. “É hora de matar a saudade”, diz, enquanto tira as malas do bagageiro. O ônibus volta para a rodovia e os baianos vão inquietos com as cabeças para fora da janela. Em poucos minutos chegam à praça de Sussuarana, lotada de parentes e curiosos. Como a maioria mora em sítios, o transporte dali para frente é feito por caminhonetes fretadas por até R$ 25, conforme a distância. Aloísio Rocha e os filhos estavam cansados, mas não escondiam a felicidade por estarem de volta. Juscélia, 10, que esperava pelos irmãos e pelo pai na porteira, também não se conteve e correu para abraçá-los. Mesmo emocionado ao rever a família, Aloísio garantiu: “No ano que vem a gente volta para Minas de novo”.

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