O gigante está agonizando. Após décadas como maior símbolo da indústria calçadista francana, a Samello vive, desde o fim dos anos 90, uma crise sem precedentes em sua história. Endividada, convive com uma dura realidade com a qual nunca foi acostumada.
Se, tempos atrás, a marca Samello era sinônimo de sucesso e prosperidade, hoje a diretoria da empresa vive às voltas com greves de funcionários, que paralisam constantemente a produção em protesto contra o atraso de salários, e com a pressão implacável e diária dos credores.
O presidente da Samello, Miguel Sábio de Mello Neto, acredita em uma volta por cima. Para isso, aposta suas fichas, principalmente, na venda da Fazenda Sudamata, no Mato Grosso, avaliada em R$ 60 milhões, e na obtenção de empréstimos bancários. Mas o tempo se tornou inimigo da empresa e, a cada dia, a situação se agrava. Alguns sócios, inclusive, já acenaram com a idéia de fechar as portas, hipótese prontamente descartada por Miguel Mello Neto. “Na minha gestão, a Samello não acabará”.
A crise começou a se desenhar após o afastamento de Wilson Mello e seu irmão, Oswaldo, o “Vadim”, falecido na última quarta-feira, do comando da empresa, entre os anos de 92 e 96. Com isso, a atuação dos herdeiros passou a ter peso maior e os problemas de relacionamento aumentaram na mesma proporção. As divergências familiares contribuíram diretamente para que a Samello começasse a ter problemas.
A situação se agravou a partir de 2000: a matriz começou a apresentar-se cada vez mais deficitária, seja pela divisão no comando, pela queda nas exportações, ou até mesmo pelo inchaço no quadro de funcionários. A crise passou a refletir nas demais empresas que compunham o Grupo Samello, principalmente MSM (borracha), Charm (calçados) e Vaccaro (pré-acabados). “A matriz não vinha bem e isso acabou contaminando todo o grupo. Além disso, tínhamos certa dificuldade em administrar nestes outros segmentos, pois nosso forte sempre foi produzir calçados”, disse Miguel.
Em 2004, uma tentativa extremada de tirar a empresa do vermelho: pela primeira vez, em oito décadas, a presidência saiu das mãos da família Mello. O executivo Renato Furtado, experiente profissional com atuação em multinacionais da área de tecnologia, foi contratado para resolver a situação. Após 18 meses, foi dispensado sem ter obtido grandes avanços. “Aprendemos muito nas partes gerencial e administrativa, mas, infelizmente, nas finanças, o impacto foi muito pequeno”, disse Miguel Mello.
Com a retomada do poder pela família, os problemas persistiram. Em 2005, os pagamentos de salários de funcionários e de fornecedores começaram a atrasar de forma contínua. Por várias vezes, a linha de produção ficou parada, seja por greves relâmpagos ou pela falta de matéria-prima. Miguel Mello Neto pede tempo e garante que a situação será revertida. “É uma crise que se arrasta há alguns anos, mas que uma hora vai acabar. A Samello tem tradição, nome e força para sair desta. Uma história de 80 anos não acaba facilmente”, disse.
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