As aventuras do brazuca voador


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Betinho era um mineirinho muito rico e esperto nascido em 1873. Mudou-se ainda pequeno para Ribeirão Preto. Apesar de adorar máquinas e motores, ele não via a hora do trem chegar logo à fazenda para ele brincar com seu papagaio de papel. Pela janela de seu vagão, em uma parada do trem da companhia mogiana, Betinho viu na outra colina daquela cidade a alta torre da Igreja nossa Senhora das Graças. Por sorte, ele não conheceu a matriz de Franca por dentro, ou teria morrido de inveja dos anjos e da Senhora esplendorosa sobre as nuvens. Aquela igreja tinha mesmo o poder de despertar ainda mais o desejo humano de voar. Em 1908, por exemplo, um cronista do jornal Janota que circulava por essas Três Colinas confessaria que tinha “vontade às vezes de subir ao pináculo da torre da Matriz Nova munido de umas asas e despencar de lá a ver se voa”. Betinho era Alberto Santos Dumont, filho de um rico fazendeiro de café. E foi na França, e não na Franca, que ele fez história. Com fortuna o bastante para viver sem trabalhar ele resolveu morar em Paris, onde, quando pequeno, conheceu o motor à explosão, pois lá teria condições de desenvolver seu talento e seus projetos de dar asas aos homens. Apaixona-se pelos balões e constrói o seu, 16 vezes menor que os outros, e batiza com o nome de Brasil. Mas um dia, o Brasil sobe demais, uma tempestade se aproxima, não dá tempo de voltar ao chão. “Eu ia, ia, nas trevas. Sabia que avançava a grande velocidade. (...) Tinha consciência de um grande perigo, mas este não era tangível. Uma espécie de alegria selvagem dominava os meus nervos. Como explicar isto ? Como descrevê-lo ? Lá no alto, na solidão negra, entre os relâmpagos que a rasgavam, entre o ruído dos raios, eu me sentia como parte da própria tempestade”, escreveu anos mais tarde. Ele amanheceu na Bélgica. Mas ele queria poder controlar os aparelhos de voar. Achava que os balões, reféns do vento e dos humores da natureza, ainda não satisfaziam o desejo de liberdade, de voar. Muitos tentavam contruir balões dirigíveis (incluindo Conde Zepelin, na Alemanha). Mas Betinho é quem realmente construiu um dirígivel eficiente. Usava motor à explosão com cordas maiores e canos para baixo (para evitar que o motor incendiasse o invólocro cheio de gás). Com a 6ª versão de seu dirigível, Betinho conseguiu domínio completo da máquina de voar, contornou a torre Eiffel e ganhou 100 mil francos como prêmio pela façanha, mas em vez de ficar com a fortuna, deu metade para os operários que o ajudaram a construir e distribuiu o restante para os pobres de Paris. Era um cara famoso em Paris. Inconfundível. Baixinho, magrinho, usava um chapelão de abas moles, calças meio curtas e um relógio estranho. Albertinho inventou o relógio de pulso, para poder ver as horas lá de cima sem ter que tirar o marcador de horas do bolso. O brasileiro esquisitinho, apesar de ter inventado tanta coisa (incluindo a porta de correr), não estava satisfeito. Queria voar em um aparelho mais pesado que o ar. “Se as aves podem, o homem também pode”. Tinha muita gente tentando. Mas quem conseguiu primeiro foi ele, em 23 de outubro de 1906 com seu 14-bis, na frente de muitas testemunhas que o aclamaram herói. Depois, ele criou outros aviões mais eficientes. Não patenteou nada para que todo mundo pudesse ter seu próprio avião, para passear e se divertir. Depois de ganhar um monte de prêmios em corridas aéreas, voltou para o Brasil. Entristecia-se a cada notícia de acidente aéreo. Se sentia culpado. Escreveu à Liga das Nações (a “avó da ONU”) pedindo que fosse proibido o uso de sua invenção como arma. Mas, em 1932, no Guarujá, viu aviões do Exército indo jogar bombas em paulistas, que haviam se rebelado contra a ditadura de Getúlio Vargas. Brasileiros matando brasileiros com a sua invenção. O maior gênio da História do Brasil se suicida de tanto desgosto. O 23 de outubro deve ser um dia de homenagem ao brazuca voador e de refletir sobre porque os nossos gênios não encontram condições de desenvolver seus talentos aqui. O Brasil não pode mais ser exportador de cérebros. Nossos gênios têm de ter apoio e condições de trabalhar em nosso País, desenvolvendo tecnologia para o bem da vida de todos.

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