Café: sustento de toda uma região


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O que uma cidade como Ibiraci, que fica em Minas Gerais e tem 11 mil habitantes, tem em comum com o povoado de Sussuarana, de 1500 habitantes e que fica cravado no interior da Bahia? Aparentemente, nada. Mas apesar dos 1,3 mil quilômetros que as separam, as duas cidades têm uma ligação: a colheita do café. Ibiraci tem plantados 7,9 mil hectares de pés de café e neste ano a colheita rendeu 350 mil sacas. Como a mão-de-obra do município não é suficiente, há cerca de dez anos muitos cafeicultores importam trabalhadores da Bahia. Na colheita deste ano, a cidade recebeu cerca de 5 mil baianos oriundos de Sussuarana, Tanhaçu, Ituaçu e Aracatu. O que leva esses baianos a percorrerem toda essa distância, todos os anos, para trabalhar na colheita do café? Simples. A seca. Ao contrário do que se pensa, esses baianos não passam fome nem vivem em extrema pobreza. A maioria mora em sítios dos quais são donos, onde criam gado e cabras. Somente na zona rural de Sussuarana moram 11 mil pessoas. O problema é que naquela região chuva é coisa rara. Têm épocas em que a chuva demora dez meses para cair. Como não há água, não é possível plantar. As únicas culturas que resistem ao clima é a palma - que serve de alimento para o gado - e o algodão. Sem trabalho, os moradores viram no café de Minas uma oportunidade para ganhar dinheiro. Um foi contando para o outro e hoje famílias inteiras viajam para Ibiraci todos os anos. Difícil mesmo é encontrar quem nunca tenha ouvido falar em Ibiraci. Quem nunca esteve no município já ouviu histórias. Lauro Gomes da Silva, 56, conhece a cidade só de ouvir falar. “Todo mundo que vai catar café volta com dinheiro. Sempre tive vontade de ir, mas não teve jeito por causa da família”. Aloísio Gomes Rocha, 57, ao contrário, conhece bem o caminho. Faz isso há três anos. Em 2006, veio em janeiro com o objetivo de voltar com mais dinheiro para casa. Em junho os dois filhos adolescentes vieram para ajudá-lo. Voltou para casa com R$ 4 mil, que terá que durar até a próxima colheita. O casal Ailton, 33, e Maria de Jesus Pires, 33, vieram pela primeira vez com os dois filhos pequenos. Voltaram para casa com R$ 3 mil e gostaram da experiência. “No ano que vem a gente volta”, disse Ailton. Com eles, Rizoneide Rosa de Jesus Silva, 41, também deve voltar em 2007. Ela cata café em Ibiraci há dez anos e nunca faltou. “A valença (sic) do povo daqui é o café de Ibiraci. Se não fosse isso, não sei do que a gente ia viver”, diz. Mesmo quem nunca saiu de Sussuarana sabe da importância que Ibiraci tem para a comunidade. “É para lá que 80% dos meus alunos vão entre os meses de junho e setembro. Quem não cata café, acompanha a família”, disse Maria da Conceição Silva Gomes, 39, diretora do Centro Educacional de Sussuarana. Só o prefeito de Tanhaçu, Eduardo Silva Santana, 32, (PL), lamenta que o povo de sua região tenha de sair em busca de trabalho. “Para mim, que sou prefeito, não é nada conveniente ver essas pessoas saindo da nossa região para trabalhar tão longe”. Mesmo assim se resigna. “Por causa da seca, esse é o meio que eles têm para conseguir manter a família”.

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