Trabalho no Comércio da Franca há seis anos e o que mais ouvi nestes anos todos da minha editora-chefe, Joelma Ospedal, foi que é preciso lutar pela pauta que acreditamos.Por mais impossível que possa parecer, precisamos abraçar a idéia com toda força para torná-la real. Foi o que fiz. A idéia era descobrir o que leva milhares de pessoas da região de Sussuarana, na Bahia, a viajarem mais de mil quilômetros todos os anos para trabalhar na colheita de café nas fazendas de Ibiraci (MG). Mas antes de continuar, preciso ser justa e dizer que a pauta não é cria minha. Foi o fotógrafo Silva Júnior quem sugeriu que acompanhássemos o retorno dos baianos para casa e descobríssemos como é a vida deles por lá.
A pauta nasceu no ano passado durante uma matéria sobre colheita de café. Acabou não dando certo. Em abril deste ano, o Silva voltou a insistir na idéia. No começo, confesso, achei a proposta meio absurda. Era longe demais. Com o tempo, de tanto ele falar me contagiou. Passei a acreditar e abracei a causa.
Comecei a me informar sobre o assunto e descobri que todos os anos a cidade de Ibiraci recebe, em média, 5 mil baianos para trabalhar na colheita do café.
Descobri ainda que os trabalhadores voltam para a Bahia entre o fim de agosto e começo de setembro. Já era maio e o que parecia simples não foi. Faltando três semanas para a viagem de retorno dos baianos fomos até Ibiraci e fizemos o primeiro contato com o “gato”, o responsável por fretar os ônibus para transportar os catadores. Explicamos a proposta e no mesmo dia acertamos a data da viagem. Voltamos eufóricos para o jornal.
Começamos a calcular os gastos com a viagem. Fiz várias ligações para a cidade para onde íamos e levantei preços de hospedagem, alimentação, táxi e as passagens de volta. Afinal, a idéia era ir no ônibus junto com os baianos. Quase tudo certo. Dali a dois dias viajaríamos.
Mas toda a euforia se transformou em decepção pouco depois. O “gato” telefonou para o jornal e disse que não nos levaria. O ônibus estava lotado. Na verdade, o motivo era outro. Para resumir, o baiano espalhou para os seus conterrâneos que nossa intenção era acabar com o trabalho deles. Disse até que faríamos uma matéria dizendo que eles tiravam os empregos dos mineiros.
Foi preciso muita paciência para tentar convencê-los do contrário. O “gato” chegou a nos ameaçar, dizendo que registraria um Boletim de Ocorrência. Não desistimos, mas tivemos que mudar os planos. De ônibus não dava para ir. Então, só na noite do dia 4 de setembro, ficou decidido que iríamos de carro.
No dia seguinte, saímos de Franca por volta das 9 horas rumo à Praça Raul Soares em Ibiraci, local da partida. Para seguir a proposta, tínhamos de encontrar um baiano para acompanhá-lo de Ibiraci até sua casa. Conversamos com um, nada. Conversamos com outro, nada. Ninguém queria se expor. Continuavam com medo.
Faltavam poucas horas para a viagem começar e eu já estava querendo voltar para casa. Foi então que o baiano Aloísio Gomes Rocha, 57, se aproximou com os dois filhos adolescentes. Disse que não teria problemas em falar. Meu entusiasmo voltou.
Pé na estrada. Ônibus na frente, viatura do Comércio atrás. Na primeira parada, ainda em Franca, me aproximei para descobrir um pouco da história daqueles baianos. Houve quem me deixasse falando sozinha. Não tinha jeito. Antes de conseguir uma boa história, teríamos que conquistar os personagens.
A conquista demorou dez horas. A cada parada, conversávamos com um, com outro. Nada de entrevistas. Só bate-papo. O Silva Júnior fazia fotos e mostrava na telinha da máquina digital. Aos poucos foram se aproximando. Gidálio de Souza Pires, 50, foi o primeiro. Queria contar sua história e nos convidou para ir até seu sítio. Começávamos a fazer contatos. Ao fim da viagem, tínhamos o convite de cinco famílias para conhecer suas casas. Depois de viajar 22 horas direto, fomos para um hotelzinho na cidade de Sussuarana.
No dia 7 de setembro começamos a percorrer a região e a cada relato a empolgação crescia. Durante cinco dias visitamos doze famílias, conhecemos três cidades, conversamos com o prefeito, com professores, comerciantes e feirantes. Ao todo, foram tiradas mais de 5 mil fotos, mais de 40 pessoas foram entrevistadas em mais de 4 horas de gravação. Ah! No caminho fomos seguidos pela Polícia em Montes Claros (MG) e abordados por dois policiais em uma feira em Tanhaçu (BA) que, desconfiados da nossa presença, pediram para ver nossos documentos.
No dia 11 de setembro iniciamos nossa viagem de volta para casa. Na bagagem, a resposta para a pergunta: “O que leva tantos baianos a viajarem 1300 quilômetros todos os anos para trabalhar na colheita do café em Ibiraci?”. A resposta está nesta série de reportagens que começa a ser publicada a partir de hoje.
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