<p>Persistência. Esta é a palavra que mais tem passado pela cabeça do empresário Miguel Sábio de Mello Neto, 45, desde a primeira semana de fevereiro, quando assumiu a presidência executiva da Samello. Seu principal desafio no cargo é tentar sanear as dívidas da empresa e brigar para que ela não feche. Motivos para desanimar não faltaram. </p>
<p><br />A começar pela crise financeira que a Samello enfrenta há anos e parece não ter fim. Em decorrência dela, Miguel convive com a pressão diária dos credores, as várias paralisações de funcionários por atrasos de salários e a briga contra o tempo para manter a entrega dos pedidos aos clientes. </p>
<p><br />Até mesmo uma invasão de trabalhadores sem-terra a uma fazenda da família, em Cristais Paulista, ocorreu no tumultuado período. Para piorar, Miguel teve de enfrentar, na última quarta-feira, a morte do pai, Oswaldo Mello. “Foram muitos episódios desgastantes e tristes. Mas tento buscar forças a cada novo acontecimento desagradável para continuar lutando. Ainda vou ver a Samello, de novo, no topo.”</p>
<p><strong> Comércio da Franca - Como o senhor define sua relação com a Samello?<br />Miguel Sábio de Mello Neto -</strong> Uma relação de vida, que começou muito cedo, quando eu ainda era garoto. Meu pai ia para a empresa e eu, geralmente, ia atrás dele. Quando a MSM foi fundada, nos anos 70, eu ia sempre para lá e ficava perturbando todo mundo. Depois, com o passar dos anos, essa relação passou a ser de muito envolvimento e carinho e isso dura até hoje. Acho que nunca acabará. </p>
<p><strong>Comércio - Quais as funções que já exerceu dentro da empresa?<br />Mello Neto</strong> - Fiz de tudo um pouco, mas já carreguei muita pedra (risos). Fui auxiliar de produção, aprendiz de contabilidade e tesouraria, planejador, comprador, gerente de compras, gerente de vendas, diretor comercial, diretor de exportação e hoje sou presidente. </p>
<p><strong>Comércio - O que a empresa já proporcionou ao senhor em todos esses anos?<br />Mello Neto</strong> - Muita coisa. Aliás, me proporciona coisas novas a cada dia que passa. Além, é claro, do aspecto material, aprendi muitas lições na Samello com meu avô, meus tios e, principalmente, com meu pai. Ele era um grande sujeito (pensativo). Um dos principais ensinamentos foi o da honradez. Tenho muita preocupação com o aspecto moral em tudo que faço como presidente da Samello. </p>
<p><strong>Comércio - Diante do afeto que demonstra ter pela empresa, como se sente ao se deparar com a atual situação financeira?<br />Mello Neto</strong> - É triste, porque meu tio Wilson Mello e também meu pai, o Vadim (Oswaldo Mello), sempre pregaram que o colaborador é o principal patrimônio da empresa. É ele que acorda cedo, às vezes carrega apenas um chuchu ou uma abobrinha na marmita e dá duro o dia todo. Quando a Samello não consegue honrar com seus salários em dia, sinto-me muito angustiado, pois isso vai contra o que eu aprendi em toda minha vida. Por outro lado, esse tipo de dificuldade me anima a acordar ainda mais cedo e trabalhar ainda mais para conseguirmos achar a solução para tudo isso. E acredito que isso vai acontecer. </p>
<p><strong>Comércio - Qual foi o melhor momento vivido pela Samello?<br />Mello Neto</strong> - Foi a partir dos anos 60, quando a empresa descobriu o mercado norte-americano. Meu pai e o tio ficaram alguns anos nos Estados Unidos e, quando voltaram, trouxeram muitas novidades e os anseios dos consumidores de lá. Foi uma época maravilhosa em que a Samello funcionou como esteio e puxou toda a indústria calçadista de Franca. Produziam-se, na época, 5 mil pares por dia, quase na totalidade para as exportações. Esse ritmo foi mantido por muitos anos e chegamos, nos anos 80, a produzir até 10 mil, 12 mil pares por dia e gerar mais de três mil empregos só na matriz. </p>
<p><strong>Comércio - E o pior?<br />Mello Neto</strong> - O momento mais crítico foram os últimos 30 dias que passamos e os que estamos passando agora, pois estamos correndo atrás para pagar os funcionários e os fornecedores, pois contávamos com a venda de uma fazenda do grupo, mas isso não se realizou. É... (pausa), sem dúvida, o momento mais crítico está sendo agora e ainda se somou a isto a morte de meu pai (nova pausa). Mas nós vamos sair desta.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Quando o senhor assumiu a presidência disse que tinha conhecimento do “fardo pesado” que seria assumir esta função. Hoje, como vê este “fardo”?<br />Mello Neto</strong> - Olha, hoje posso te dizer que este fardo está um pouco maior do que eu imaginava. O que mais me chateia são as paralisações que vêm acontecendo, mas entendo o lado dos funcionários, pois dependem do salário que ganham para tocar suas vidas. Mas não reclamo, nem me isento das responsabilidades que assumi. Vou brigar até o fim pela Samello e por todas as pessoas que dependem dela. </p>
<p><strong>Comércio - Já surgiram boatos de que parte da família prefere fechar a Samello. É verdade?<br />Mello Neto</strong> - Cogitou-se, num momento de extremo aperto, fechar as fábricas, vender tudo, pagar a todos que devemos e ver o que sobrava para a gente. Mas esta idéia partiu de uma representação insignificante em termos acionários, uma minoria bem pequena mesmo. Essa idéia já está barrada e totalmente fora de cogitação. Em minha gestão, a Samello não acabará. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor vê uma saída para toda esta crise vivenciada pelo grupo?<br />Mello Neto</strong> - Se Deus quiser, vamos conseguir vender uma fazenda nossa no Mato Grosso ou levantar recursos maiores junto a instituições financeiras ou os dois em conjunto, o que seria melhor ainda para a gente conseguir colocar a casa imediatamente em ordem, com o pagamento destas folhas atrasadas e das matérias-primas para colocar as máquinas para girar e a gente trabalhar uns dois ou três anos para girar, pagar todas as dívidas e, em 2008, 2009, voltar a pensar em crescimento de novo.<br /></p>
<p><strong>Comércio - E se nada disso der certo, o senhor tem algum tipo de “plano B”?<br />Mello Neto</strong> - Não, por enquanto ainda não pensei nisso, porque acredito que as alternativas que levantei darão certo. Agora, não ficaremos sem opções caso isso não se concretize. Podemos dispor de propriedades menores, como barracões, terrenos, fazendas menores, e também correr atrás de recursos menores para, pelo menos, “apagar o incêndio”, ou seja, pagar a folha de pagamento que está atrasada e quitar os débitos com os fornecedores. É o mínimo para colocarmos a fábrica para produzir. </p>
<p><strong>Comércio - O que espera do futuro?<br />Mello Neto</strong> - Deixe-me ver, daqui a dez anos eu vou estar com 55 (risos). Bom, vejo a Samello muito bem estruturada, bem enxuta, com seu nome e sua marca, como sempre, muito fortes, pois isso é que tem nos proporcionado passar por essas crises todas, e eu já tendo passado o bastão para uma pessoa mais jovem e mais dinâmica que possa manter nosso compromisso com a honradez e a qualidade. Eu também vou estar por aqui, meio velhinho, meio derrubado, fazendo alguma contagem de couro, inventário de solado, despachando sapato, enfim, vou estar dando algum palpite.</p>
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