Numa entrevista à Revista APMP em Reflexão no início do ano, Geraldo Alckmin afirmou que apontar os erros e os eventuais defeitos dos adversários não melhora as próprias qualidades, e por isso na campanha não atacaria o PT e o Presidente Lula.
Perfeito. Entretanto, esqueceu-se de tal estratégia quando mais deveria agarrá-la. Ao assumir a postura de acusador no segundo turno, o candidato do PSDB jogou por terra tudo que havia conseguido até então e entregou de bandeja a reeleição ao adversário.
Para superar a grande atração que o atual mandatário da nação exerce sobre o eleitorado, Alckmin deveria mostrar-se superior ao adversário. Ora, se Lula e o PT estão atolados até o pescoço em fatos inexplicados e inexplicáveis, Alckmin deveria manter-se longe deles, sob pena de atolar-se também. Era desnecessário falar mal de Lula e do PT; a mídia já vem fazendo isso à exaustão. Ninguém fica limpo mexendo em sujeira e, pior, quem tem telhado de vidro não deve sair atirando pedras. O tempo na mídia deveria ser utilizado para mostrar projetos de melhoria do país. Coisas concretas e exeqüíveis cuja necessidade seja perceptível ao mais comum dos cidadãos, em vez de afirmações genéricas como ‘o país precisa crescer’, ‘vamos dar um banho de ética’, que ninguém leva a sério.
Para conquistar o eleitor, o candidato do PSDB deveria mostrar-se melhor do que o outro, mas em vez disso escolheu igualar-se a ele. Triste escolha. Igual por igual, o grosso do eleitorado parece preferir quem já está lá e tem um pouco mais de carisma.
Ao tentar acuar o oponente, Alckmin deu-lhe o que mais precisava: coragem. Lula saiu do abatimento, ganhou ânimo e foi para o ataque também, tentando expor as entranhas dos tucanos, que afinal não são impolutas. Time que precisa da vitória não pode se descuidar da defesa. Antes de fazer gols, deve evitar tomá-los. O candidato tucano teve mais de quarenta milhões de votos no primeiro turno; deveria tentar segurar esses votos e devagar buscar o que faltava para ganhar no segundo turno. Para tanto, bastava manter a mesma postura. Assumindo a tática errada, Alckmin desfigurou-se. Para alguns, revelou-se. Perdeu o encanto, diriam outros. Perdeu votos.
Foi o PSDB que inventou a malfadada reeleição e, pelo que corre, a alto preço. O grande feito de Fernando Henrique Cardoso foi banir a inflação com o Plano Real. Mas a que custo? A melhora da distribuição de renda foi efêmera. O país não resistiu a juros altos, desestímulou-se a produção e o consumo, faltaram investimentos sociais, o crédito ficou difícil e caro, muitas empresas quebraram, o desemprego atingiu altos índices. Sem falar no aumento da já extorsiva carga tributária. Lula elegeu-se em 2002 porque o brasileiro não estava satisfeito com o governo do PSDB.
E o Estado de São Paulo tucano? Insegurança, péssimo ensino básico, justiça lenta, polícias mal-estruturadas, sistema prisional falido, derrota para a delinqüência juvenil. Do estado mais rico da federação se pode dizer, conforme o destino, que tem boas estradas, mas que são feitas e mantidas com o dinheiro do próprio usuário. Como é caro usar as rodovias paulistas! Alckmin disse que Lula gasta muito com propaganda. Gasta mesmo. Mas o tucano, no governo de SP, também gastou uma enormidade para lustrar a própria imagem.
Em Política o que há são pessoas e grupos que buscam o poder para primeiro satisfazer os próprios interesses. Política é um grande negócio, onde ninguém faz sacrifício pessoal em prol do bem comum. É assim com o PT, que transformou o Brasil no seu terreiro particular, e com todos os outros partidos. Negociatas, fraudes, desvios, não são apanágio só do atual governo. O PT no poder não se mostrou pior do que os outros partidos. Revelou-se igual. Talvez menos sutil. A forma escancarada que as coisas são feitas é que está causando espanto em muitas pessoas. Em mim, inclusive. Ver o PT no poder foi o que faltava para constatar que é necessária uma mudança radical na mentalidade dos cidadãos e dos políticos. Do jeito que está não pode continuar.
Eu voto contra o atual governo porque o desaprovo tanto no campo ético quanto no administrativo. Acho que um segundo mandato será desastroso, com reflexos negativos na economia e na imagem do país. Se está ruim, deve-se mudar. Votar contra é a forma de dizer também ao próximo presidente que ele precisa ser melhor.
Não tenho a ilusão de pensar que o país vai passar da água para o vinho. Mas penso que se deve tirar do poder quem não soube fazer uso dele.
PAULO PEREIRA DA COSTA é Promotor de Justiça
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