O sistema financeiro mundial surpreendeu-se com o anúncio de que o economista Muhammad Yunus receberia o Prêmio Nobel da Paz no último dia 17 de outubro. Yunus recebeu a distinção por ter sido o pioneiro na implementação do microcrédito para pessoas em extrema pobreza em Bangladesh. Apesar de inusitada, a notícia prova que o microcrédito pode ser um fator de melhoria real das condições de vida de milhares de pessoas porque, ao diminuir as desigualdades, torna-se um instrumento fomentador da paz mundial.
Yunus merece o Prêmio porque conseguiu fazer, ao longo de mais de 30 anos, o que os bancos a muito custo tentam implementar atualmente ou seja, tornar o microcrédito algo rentável e que dê resultados para a instituição. O método utilizado pelo economista para oferecer serviços bancários para uma enorme população de excluídos, sem exigir garantias para empréstimos de pequena monta, não é novidade para quem trabalha com cooperativas de crédito. Nossa missão é justamente essa:
facilitar o acesso ao crédito para quem acredita que é possível resolver seus problemas financeiros sem ficar refém de juros abusivos que alimentam os extorsivos lucros bancários.
Este Prêmio Nobel da Paz 2006 nos entusiasma ainda mais com o tema “Criando um Mundo Diferente” proposto pelo organismo internacional que representa o cooperativismo de crédito no mundo, o WOCCU (The World Council of Credit Unions, Inc.), para comemorar o Dia Internacional do Cooperativismo de Crédito, hoje.
Facilitar o acesso ao crédito, por fundamento, já é a melhor contribuição das cooperativas de crédito para criar um mundo diferente, um mundo melhor. Emprestar dinheiro a taxas mais baratas do que as praticadas no mercado, sem exigir reciprocidades, é uma grande vantagem do sistema de crédito cooperativo, mas não é a única.
O cooperativismo de crédito tem crescido num ritmo acelerado, beneficiando mais de 136 milhões de pessoas em mais de 91 países. Só no Estado de São Paulo mais de 250 milhões de cooperados retiram empréstimos médios de R$ 100 a R$500.
Semelhante ao “Banco das Vilas” inventado pelo senhor Yunus, estas instituições conseguem operar com índices baixíssimos de inadimplência. Ou seja, esta é mais uma prova de que o microcrédito é um negócio que pode dar bons resultados, além contribuir para criar um mundo melhor, mais justo e humano.
Ao trabalhar com o microcrédito as cooperativas cooperam para o desenvolvimento econômico da região onde estão instaladas porque, diferente dos bancos, a riqueza gerada fica na região e não entra na somatória dos lucros acumulados pelo banco. E assim, cada cidade que recebe uma cooperativa de crédito se transforma em um pólo de movimentação financeira também para o País. Caso a cooperativa some algum “lucro”, este valor é distribuído entre os associados na medida de sua participação.
Isso é justiça social, isso é fazer a diferença para um mundo melhor.
Além de todos estes benefícios, o cooperativismo de crédito brasileiro está começando a educar as crianças também. Muitas cooperativas já adotam projetos de educação financeira para filhos de cooperados e em escolas das cidades onde operam. Levar educação para as crianças e fazê-las compreender o valor do dinheiro é uma contribuição incomensurável a longo prazo para formar jovens e adultos que saberão lidar e controlar o orçamento familiar.
Só assim, de fato, criaremos um mundo como o proposto pela WOCCU e provaremos que o microcrédito é uma ferramenta de paz e de desenvolvimento viável.
MANOEL MESSIAS DA SILVA é presidente do Sicoob Central Cecresp (Central das Cooperativas de Crédito do Estado de São Paulo)
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