Um novo Porto Seguro


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Muito se fala sobre os fatores que vem influenciando negativamente o desempenho das exportações de calçados. É fato: nos primeiros meses deste ano, nossa indústria deixou de embarcar quase 12 milhões de pares, uma queda de 9% com relação ao mesmo período de 2005. Também é fato que o câmbio é o principal vilão desta história. O prejuízo só não é maior porque o calçado brasileiro é mundialmente conhecido por sua qualidade e design diferenciado. E, também, porque nossos fabricantes - apoiados pela Abicalçados e pela Apex Brasil - iniciaram um movimento de diversificação de mercados, acabando com a situação de dependência dos Estados Unidos e Argentina. Estou convencido de que, neste momento, a Europa é nosso “porto seguro”, e são muitos os fatores que justificam isso. Em primeiro lugar, o mercado europeu é menos sensível à valorização do real frente ao dólar, uma vez que a moeda corrente na maioria dos países daquele continente, o euro, mantém uma paridade favorável com relação à nossa moeda. Segundo, e talvez mais importante, é que os europeus se dispõem a pagar mais por um produto que apresente alto valor agregado e, curiosamente, que tenha uma relação socialmente responsável com o uso intensivo de mão-de-obra. Neste aspecto, nosso produto leva larga vantagem contra concorrentes mundiais, em particular China e Índia. Mesmo com relação aos calçados italianos e alemães - ainda considerados referências na moda - somos competitivos. E não só em qualidade e design, mas também no preço. Quando estive na Micam, soube pelo presidente da Associazione Nazionale Calzaturifici Italiani (ANCI) que o preço médio praticado pela indústria italiana para sapatos de couro feminino, masculino e infantil é cerca de 27 euros. Ora, couro é uma das especialidades brasileiras, e nosso calçado chega ao continente europeu pela metade deste valor. Por isso, quem prospectar o mercado europeu, que encontrar seu nicho, voltará a exportar com vigor e recuperar as perdas dos últimos anos. Felizmente, muitos empresários já acordaram para esta realidade. Comparando-se as exportações de 2004 com 2005, observamos que a participação dos 10 maiores compradores europeus do nosso calçado saltou de 15% para 20% do total das exportações do setor. Só no caso destes 10 países, o incremento de um ano para outro foi da ordem de 2,5 milhões de pares e quase US$ 115 milhões. Nos primeiros oito meses deste ano, as vendas para o Reino Unido cresceram 7% no número de pares e 15% em receita; para a Holanda, 15% em pares e 32% em receita; para a Alemanha, então, 28% em pares e 41% em receita. São volumes ainda pequenos, é verdade, se comparados ao mercado norte-americano. Os EUA ainda são nosso maior comprador, responsáveis, em 2005, por metade dos embarques - US$ 950 milhões. Porém, a soma de pequenos pedidos e a intensidade com que as vendas para a Europa vêm crescendo - e podem crescer no futuro - dão a dimensão do potencial deste mercado. Esta nova realidade pudemos constatar na recente viagem para a Europa, onde a Francal Feiras participou como expositor da GDS e da Micam. A visitação de compradores dos países europeus e do Oriente Médio é marcante. Seu interesse pelo calçado brasileiro, inquestionável. Nossa presença lá teve o duplo objetivo de levar o conceito de design tipicamente brasileiro aos importadores que ainda não o conhecem e também de divulgar uma das maiores feiras do setor no mundo, a Francal, e atrair o maior número possível de compradores internacionais para o evento. Nosso discurso foi: “Venham apaixonar-se pelo calçado brasileiro. Venham fazer negócios com um dos maiores produtores mundiais do setor”. Desta forma, queremos estabelecer uma via de mão dupla, trazendo os mercados europeu e asiático, do Oriente Médio, Oceania e América Latina para dentro do pavilhão, possibilitando que centenas de pequenos e médios fabricantes - que não têm condições de manter representantes comerciais em outros continentes - possam entrar em contato com este fabuloso novo mundo. Como um dos representantes da indústria calçadista nacional, a Francal acredita que, desta forma, está fazendo sua parte para o sucesso do setor. ABDALA JAMIL ABDALA é presidente da Francal Feiras.

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