O que a esquerda democrática ainda pode fazer? Muito pouco. São poucas as pessoas que ainda acreditam na transformação da sociedade brasileira em algo mais justo e livre para todos, pois a maioria dos que antes tinham essa esperança, ousavam sonhar e agir se deixou enganar. Abandonaram o desejo de ruptura com as velhas estruturas para se conformar com “reforminhas” ou paliativos ilusórios. A esquerda mesmo não conseguiu colocar nenhum candidato no segundo turno.
Além do valor simbólico de sua eleição, Lula não significou avanço algum. Não me refiro à questão econômica simplista, mas a desenvolvimento social. Pouco adiantaria se o Brasil passasse a crescer muito mais (que os pífios 2,5% ao ano) se esse crescimento continuar sendo concentrador de renda. Lula se vangloria de o Brasil estar tendo superávit comercial com a China graças ao álcool, mas os milhões provenientes do álcool só beneficiam uma meia dúzia de usineiros (ou alguém acha que o cortador de cana recebe participação nos lucros, benefícios e tratamento digno). Enquanto isso o proletariado de indústrias intensivas em mão-de-obra (como o calçadista) sofre com a crise desses setores, entre outras coisas, por amargarem déficits com o gigante asiático. Lula não se importa. Ele está comprometido com os usineiros e com os banqueiros (que também têm lucros recordes). Lula não ousou enfrentar os especuladores do sistema financeiro nem os especuladores da terra.
As “bolsas” distribuídas enquanto o povo perde seus empregos não podem ser chamados de transferência de renda, mas devem ser vistas como uma maneira de tornar os miseráveis reféns, de serem chantageados pelo partido no poder. O que o povo quer não é esmola, mas democratização dos meios de produção. Não quer frutos que caíram do cesto dos magnatas, mas sim a árvore, para regá-la e colher com dignidade.
Quanto ao candidato tucano, nem é preciso dizer. Também não está interessado em democratizar a terra e o Estado, como já deixou claro sua posição a favor do agronegócio, baseado na baixa utilização de mão-de-obra, e na expansão das fronteiras agrícolas para plantar soja (desmatamento da Amazônia, grilagem de terras públicas e indígenas. Um tipo de invasão de terra que os tucanos não combatem, pois é feito pelos poderosos). Quanto à preferência tucana pelos capitalistas do setor financeiro, em detrimento dos trabalhadores e produtores, basta lembrar que na “Era FHC” os juros eram até maiores que os de hoje. Venderam nossas estatais e reservas (alguém se esqueceu do caso Cacciola?).
Se os tucanos e a quadrilha que se apropriou do PT e do Estado são ambos grupos de direita, aliados a banqueiros e oligarquias coronelistas (uns com os Magalhães, outros com os Sarney), pouco interessados na transformação da sociedade, como a esquerda deveria votar?
A primeira opção que passa pela cabeça das pessoas de bem é a de anular. Se são farinha do mesmo saco, se nenhum merece o voto das pessoas decentes, por que votar?
Outros pensam que, se nenhum está comprometido em fazer o Brasil verdadeiramente andar para frente na área social, é melhor votar naquele que pelo menos faz o Brasil “rastejar” alguns milímetros através das políticas compensatórias.
O “menos pior” dos caminhos, contudo, é aproveitar o pleito de 29 de outubro para consolidar a democracia, único caminho legítimo para que um dia a esquerda verdadeira venha a chegar ao poder e faça as transformações necessárias. Se estamos esperando há 42 anos (desde que o último presidente de esquerda da História do Brasil foi derrubado pelos golpistas), esperemos mais 4, ou 8, mas nos articulemos de maneira limpa, sem precisar abrir mão dos ideais históricos e sem nos aliarmos a criminosos ou oligarcas. Para consolidar a democracia, num quadro em que os dois candidatos são exatamente iguais, melhor é promover a alternância de poder pelo menos nominal. Entre duas direitas, melhor votar naquela que pelo menos se assume enquanto tal, e não na direita travestida de trabalhista, que abusa da confiança do povo e o trai. Novo triunfo da falsa esquerda, em nada contribuirá para a transformação da sociedade, e permitirá que a direita assumida diga no futuro: “A ‘esquerda’ já teve sua chance, é melhor deixar com a gente, como sempre foi”. E isso dificultará a ascensão de uma coalizão de partidos da esquerda democrática verdadeira no futuro.
A maioria dos eleitores de Lula realmente ainda acredita de maneira ingênua que ele seja uma força de esquerda. Contudo, àqueles que abriram os olhos e sabem que os dois candidatos são da mesma estirpe, sugiro que coloque a mão na frente da tela da urna para não ver a cara de Geraldo Alckmin, mas vote nele, por mais nojento que isso possa parecer. Entre dois lobos, menos mal aquele que não está em pele de carneiro.
LEANDRO CRUZ é professor e historiador formado pela Unesp e redator do Comércio da Franca
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