O despojamento radical


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Existem algumas preocupações que rondam a nossa vida: o sucesso e o “ter” estão entre elas. A palavra de Deus que escutaremos amanhã nos encoraja a ter a mesma disposição de Salomão. Certo dia, ele teve um sonho: podia pedir o que desejasse e lhe seria concedido. Teria podido pedir ouro, saúde, poder, força. Mas, ao invés, ele disse a Deus: “eu não passo de um adolescente, não sei como governar um povo tão numeroso. Dai, pois ao vosso servo, ó Senhor, a Sabedoria, um coração sábio, capaz de discernir entre o bem e o mal. Salomão se comportou com sabedoria: preferiu a sabedoria de Deus a qualquer outro bem. Todos os tesouros, o ouro, as pedras preciosas, a beleza física e a própria saúde, de fato, em comparação com a sabedoria são como nada, só lama, areia. Quem pede a sabedoria fica sem as coisas maravilhosas da vida? A palavra de Deus responde: junto com ela são também concedidos todos os outros bens. Toda pessoa que cultiva a sabedoria, que aprende a dar o justo valor às coisas, quem faz as escolhas conforme o projeto de Deus, nada perde, aproveita tudo, pois, encontra a verdadeira felicidade. Jesus mostra a conduta exigida para poder segui-lo. É preciso ter a coragem de desprender-se dos bens. Um dia, Jesus recebe a visita de um jovem rico que lhe pergunta: “Bom Mestre, o que devo fazer para conseguir a vida eterna?” O jovem não fala de “conquistar, merecer, ter direito” mas de “herdar” a vida eterna. A herança não se ganha, não se recebe como prêmio, como remuneração por um trabalho, mas é dada gratuitamente. Nada é concedido como prêmio pelas boas ações. Tudo é dom. É por isso que Jesus ao responder a pergunta feita o estimula a observar os mandamentos. A lei de Deus não é um exame severo, mas é a palavra de um Pai, que sinaliza para o caminho da liberdade e da felicidade. Quem os observa não merece qualquer recompensa: deve somente agradecer por ter-lhe dado a oportunidade de descobrir o caminho da vida. Às vezes temos vontade de fazer tudo diferente, somente apoiando a vida no que dá prazer. Mas tal atitude não traz felicidade. O afastamento de Deus é considerado como a apropriação de um bem que não nos pertence. O jovem responde para Jesus que era cumpridor dos mandamentos. Jesus fixa no jovem rico um olhar carinhoso, porque percebe que o seu coração está preparado para um vôo mais alto e então lhe dirige um convite: “Vai, vende tudo o que tens e distribui aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me”. Não é possível tornar-se discípulo de Jesus se o coração não estiver desprendido de tudo o que se possui: sucesso, diplomas, objetos, amigos influentes, honras, prestígio. Não se trata de uma convocação para desprezar, ou pior, para destruir os bens deste mundo, mas uma inspiração, para usá-los de uma forma correta, para valorizá-los, para colocá-los no plano de Deus a serviço de quem se encontra necessitado. O jovem rico não consegue cumprir o que Jesus lhe pediu e opta em continuar com seus bens. Não se anima a arriscar, tem medo de perder, afasta-se acabrunhado porque não tem a coragem de desapegar-se. O jovem não consegue entender que o coração do homem foi criado para o amor infinito, e enquanto permanecer escravo das coisas materiais só lhe restam o desencanto e a infelicidade. Pecado não é ficar rico, é pecado ficar rico só para si. Aquele que pensa somente em si mesmo é somente um egoísta, incapaz de enxergar qualquer coisa além da soleira da sua casa. Deus tem uma Palavra “viva e eficaz”, pois, ela sempre produz resultados. Ela é “cortante e penetrante” mais do que uma espada afiada. O objetivo de Deus é desinstalar-nos como um Pai que espera o desenvolvimento do seu filho. JOSÉ GERALDO SEGANTIM é pároco da Catedral de Franca

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